segunda-feira, 7 de novembro de 2011

No Bravery


O campo de batalha se estendia, quilometros e mais quilometros de morte. O suspiro do fim cercando a tudo, abraçando aos corpos, molhando à tudo com uma chuva insistente. Porque era o fim. Porque ele vencera a batalha; e o peso de sua vitória, agora, lhe parecia tão pesada... Tão injustamente insuportável.
        Caminhar era dificil, com todos aqueles corpos. Mas ele precisava sair dali. Ele estava vivo. Ele lutara por aquilo, matara pela vida. Ele era um soldado. Evitava olhar para os rostos anônimos dos corpos, das crianças, com medo do que veria. Mas era impossivel não sentir o odor - tudo fedia à morte, à inocência e lagrimas roubadas. Ele tinha certeza, muitos daqueles corpos, meio mutilados pela covardia armada do mais forte, tinham os rostos manchados com lagrimas mal-recebidas. Ele ainda podia ouvir os gritos, os choros, os pedidos, as súplicias.
        Ouvia.
        O eco estava ali, em todo canto, no canto onde ele estava.
        Mas ele não podia fazer nada.
        Estavam mortos.
        Ele já fora corajoso.
        O destino lhe reservara àquilo. Ele era um covarde. Não um herói, mas um mero covarde.
        E já sentira o sabor do heroismo antes, já sentira o prazer de ser herói; sabia, agora, que não passava de mentira. Sua vida, sua missão, aquilo tudo - não passavam de mentiras.
        Por isso ele não conseguia mais olhar, não conseguia enfrentar a destruição que causara. Não queria mais ser julgado, não queria mais ouvir os lamentos acusadores. As casas pegavam fogo, queimavam, e ninguém mais poderia morar ali. Os corpos rigidos, no chão, se misturavam à todos os outros, numa sopa inconfundível de inocentes. E ele sabia daquilo tudo, sabia, via, sentia. Ouvia as crianças brincando, antes de fazer aquilo tudo, antes de roubar as vidas. Antes de dar o ultimo tiro.
        Tentou sorrir. Pelo menos uma ultima vez, tentou lembrar-se de algo bom. Mas tudo que era bom, lembrava-lhe sua covardia. Não era um homem bravo. Não era um heróis. Era um assassino.
        Ele tivera de tudo, menos bravura.


"E não vejo nenhuma bravura
Nenhuma bravura em seus olhos, não mais.
Somente tristeza."
- James Blunt

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