domingo, 29 de janeiro de 2012

217


A última badalada do sino ecoava pela pequena cidade,  numa nove horas de uma noite escura e fria. Uma nevoa pesada e sufocante cobria toda a região próxima da igreja, como se fosse uma enorme cortina, enquanto morcegos sobrevoavam a praça vazia. Uma coruja pia ao longe. Uma pessoa acelera o passo, corre, arfa por ar, tenta escapar das visões, dos crimes , de confusão... principalmente, de confessionários.
                Aliás, ele desejava nunca mais ter de olhar na cara de um padre, fosse ele quem fosse.
                As casas se apertavam ao seu redor, enquanto ele tentava correr no meio da nevoa. Ele pode sentir a presença dos morcegos, logo acima de sua cabeça, e, mesmo sem poder enxergar nada além do que seu próprio desespero, podia jurar que milhares de olhos o fitavam com ódio. Mas o que fizera? Por hora, era melhor não pensar em nada, era melhor correr. Apenas fugir. Ir para longe. Sair daquela maldita cidade. Tranquila? Quem lhe dissera aquela piada irônica? Aquela cidade estava longe de ser tranqüila...
                Parou de frente a casa que estava hospedado, e, desesperado, bateu na madeira da porta  com muita força. Suas mãos tremiam, e seus olhos não cansavam de olhar ao redor, como se isso fosse fazê-lo capaz de enxergar na escuridão. Em dez segundos longos a porta se abriu, com o rosto de seu amigo, um rapaz cheio de espinhas e cabelos escuros, sendo iluminado por uma vela já gasta.
                - Fred, precisamos ir. Temos que sair daqui! – sua voz saia tremula, mas ele não teve força de vontade para pô-la mais firme.
                O outro lhe dirigiu um olhar cético, as sobrancelhas franzidas com humor, enquanto tentava esconder um sorrisinho zombeteiro pelo estado lamentável do amigo.
                - Ora, o que foi agora? Algum dono de loja quer matá-lo, por tentar namorar suas mulheres, ou apenas “pegou” mais um peixe e esqueceu de pagá-lo? – apesar do esforço, a voz de Fred mostrava com maestria toda a diversão que sentia.
                Um guincho, como esgar de garganta humana, ecoou pela rua; mas o som estava mais próximo do bestial do que do humano. Fred calou-se, assustado, e sentiu-se empalidecer enquanto olhava ao redor da rua, buscando inutilmente a fonte do som. Seus olhos voltaram-se para o amigo John novamente, uma sombra de indagação e medo nos olhos.
                - O que fez? – uma única frase. Era a única que conseguia dizer.
                - N-n-n-nada! Juro! Foi aquele maldito padre! Temos que sair daqui, antes que ele apareça com as loucuras dele. Ele é louco!
                Da escuridão enevoada, saiu um sombra. Lenta, mordaz, sua capa negra tremulando no vento. Fred e Jonh, sentindo os ossos tremerem dentro dos músculos amortecidos pelo medo, fixaram os olhos na imagem, até ela estar próxima o suficiente para identificá-lo... Padre Vinicius sorriu para eles, um sorriso gentil e obscuro.
                - Eu disse que não adiantava fugir. Bem, temos assuntos a tratar, não? Veremos se é santo o suficiente para ir ao céu... – seu sorriso alargou-se, enquanto aproximava-se. Três passos, dois passos, um passo; estava tão próximo dos rapazes, que eles eram capazes de sentir seu hálito doente, uma mistura burguesa de chá de canela e maçã com bolachas baratas.
                O frio, se isso era possível, aumentou.
                - Será que não têm coragem de descobrir se são santos? – o padre riu, sua voz nodosa causando um frio gelado na espinha. De repente, sua voz tornou-se sombria. – É melhor aceitarem meu teste. Não gosto de desobediência, e desobedecer a igreja é heresia... e lugar de herege é no inferno.
                Facilmente, mesmo com seu corpo avantajado e pesado, ele prendeu os dois rapazes congelados de medo com duas algemas interligadas. Sem pressa, levou-os em direção a neblina, em direção ao lugar em que sua doentia religiosidade levava os ímpios e fieis à morte...
                A coruja, ao longe, piou mais uma vez.

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Peço desculpas pelo hiato do blog. Bem, voltei, agora, com parte de um conto um pouco estranho. Faz um tempo que tento começa-lo a escrever, mas não sabia muito bem como desenvolver a narrativa, então... Ai está o inicio dele, apesar de eu não saber se escreverei a continuação (haha). 

Para quem não entendeu, eu explico: o conto começa com Fred e Jonh, dois amigos que acabaram de chegar numa pequena cidade do interior. Apesar da estória acontecer neste século, a cidade é isolada o suficiente para seus cidadãos agirem como os de cem anos atrás. É nesse local que vive o estranho Padre Vinicius, que sempre tivera hábitos esquisitos, apesar de ninguém nunca desconfiar que ele era o responsavel pelo sumiço de fieis da cidade. Seu objetivo? Testar a 'santidade" das pessoas, e, dependendo do resultado (ou não, haha), matá-las. 

Sei que acabei contando tudo, e tal, mas, como não tenho certeza se vou continuar a escrever o conto, que pelo menos vocês entendam esse confuso incio. 

Até breve. [; Tentarei postar mais, mesmo que meus textos não saiam tão bons quanto eu acho que deveriam sair. ^^
Ja nee...

sábado, 7 de janeiro de 2012

***


Eu tinha muito o que dizer, mas acabei calando-me sem dizer nada. É melhor assim, não? Talvez. Quem sabe.

O ano novo começou... Sim, mais outro. Eu pensava em pôr no papel palavras bonitas, um montão delas, que dessem esperanças à pessoas que nunca vi e  à outras que já vi demais, e não me canso de ver, também - gosto mais delas, e, sempre e sempre, minhas fragéis palavras se dirigem à estas almas. É certo, as palavras transformam. E transformar é fascinante, sei disso. Gosto de ver como as palavras conquistam, como emocionam, como fazem feliz. Gosto de escrever, e escrevo por isso, escrevo pelos leitores. Mas, sobre o ano novo, não tenho o que dizer. Não tenho à quem dirigir palavras.
Sim, sem palavras bonitas, sem falsas esperanças e sem vírgulas enfeitadas. Melhor ainda, sem pontos finais. Sim, que o texto continue sem nada mais do que a realidade, e que ela não te desagrade. Por quê sentir-se chateado com a vida? Ela é boa, muito boa! Com as tristezas e infelicidades, ela é perfeita. O ano novo, como no anterior, será cheio dela - cheio dessa vida tão contínua e impontuável -, e será bom aproveitá-la (de novo). Por quê não? Se me é concedido mais um dia, creio que é bom que eu o viva. Viver é bom. É necessário. Estamos aqui para isso, não? Esse é nosso ofício, viver é nossa função. Nada mais importa; não desejo, à você, riquezas ou saúde, nesse novo ano. Desejo que você viva. Viva e que continue a viver. Não importa se está enfrentando uma doença terminal, ou se está à ponto da falência, ou se já lhe tiraram tudo (até o amor)... Não importa. Espero que você viva. E que queira viver.
Acredite... Quem está dentro, quer sair; mas quem está à ponto de ser jogado porta afora, quer desesperadamente se manter dentro. Por isso aproveite. Por isso viva. Viva e continue vivendo. Esse é meu desejo para você. Esse é meu desejo para mim mesma. Que vivamos juntos. Que escrevamos esse livro de mãos dadas, com os dedos entrelaçados e os corações unidos. Isso é o que podemos fazer, para sobreviver à inexistência das palavras bonitas... É o que podemos fazer para sobreviver à realidade e sua presença inesquecível. Não estamos num conto de fadas, mas que possamos falar e escrever, que possamos transformar esse conto num conto feliz. Sim, que vivamos, e que sejamos felizes por estarmos vivos.

quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Eternidade


Odiava aquele lugar. Odiava aquele cheiro puro e artificial; o odor insuportável da doença e da tentativa de cura; da morte e da esperança de vida. Virei-me na cadeira - tão desconfortável - e fitei a única janela daquele triste quarto de hospital. O céu, ironicamente, estava azul, ignorando totalmente a reviravolta que acontecia em minha vida - na vida das pessoas que eu mais gostava.
Afinal, de que serve a vida, se podemos perdê-la tão rapidamente? Por quê ela é tão frágil e fraca?Por quê? Diga-me, Kaeda: por quê?
O barulho das máquinas, aquele bip bip doentio, continua tocando fracamente. Posso sentir a aura da morte rondar meus pés e entrar debaixo da cama do hospital, posso ver como ela se entranha na pessoa que mais amo no mundo e mais linda, mesmo tão pálida e vestida com aquela camisola de hospital. É triste ver como sua vida... todas suas lembranças... estão sendo seguras por máquinas. Máquinas. Pedaços de metal e fios. Meras máquinas.
Máquinas. Elas não possuem ossos, ou músculos; são apenas parafusos e fios, todos emaranhados numa confusão esquisita. Uma imitação de nós, homens, que nem de longe se parece com os humanos. Sim, são isso as máquinas.
Máquinas são mais fortes que nós. As nossas criações, invenções inúteis, podem viver por mais tempo, duram gerações. E nós - nós morremos. Ela... Ela prometeu-me que ficaria comigo, que me acompanharia, que não me deixaria sozinho... E está deitada nessa cama de hospital. Com a vida segura por essas máquinas nojentas...
Vi um pássaro cortar o céu, lá fora. As nuvens são seus limites, e suas asas são sua vida. Queria eu voar. Voar e me perder naquele azul puro, cortar as nuvens e respirar aquele ar nostálgico. Ao invés disso, estou aqui. Você, Kaeda, também está. 
Fixei meus olhos no rosto pálido. A cabeça da garota descansava pesadamente no travesseiro, fazendo curvas naquele objeto fofo. Havia fios por todos os lados, na menina, e seus cabelos, antes curtos, estavam longos e sem brilho. Tal qual uma máquina. Meus olhos começaram a queimar, quando percebi que ela me fitava também, e me dirigia um sorriso leve e doce.
Deus, não deixe que ela vá... Faça com que fique.
- Kaeda... - principiei, mas não havia palavras. Para que dizê-las, então? Elas estão lá fora. E eu não posso buscá-las.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, olhando-a. E não sei quando seus olhos começaram a fechar-se, lentamente, como se estivesse decorando cada expressão de meu rosto. Meus dedos apertavam os dela com força, até que senti que seria capaz de tirar sangue de sua pele frágil. Seus olhos continuavam a pestanejar e a fechar-se. Cada vez mais eu a via caminhar para o mundo da escuridão... Até que, sem aviso prévio, Kaeda fechou os olhos totalmente. E nunca mais os abriu.
Oh, a morte, doce e lenta como ela é, levou-a em seus braços apertados e esqueleticos. Sim, podia ver ambas, ali, e podia sentir o cheiro. O hospital, o quarto, as máquinas - tudo, tudo continuava ali... Até mesmo aquele corpo pálido e adoecido; morto. Eu poderia fingir que ela estava viva, e poderia conversar com ela, não? Sim, poderia. Tudo era como antes... Mas ela abandonou-me. Não havia alma naquele conjunto de carne à minha frente, não havia alma e nem seu coração batia. Afinal, é par isso que nosso corpo serve, não? Mas pensar nisso... não tirava de mim a dor. Minha irmã, que me amara e que amei, me abandonou...
E não tinha pretensão de voltar. Nem hoje, nem nunca. Afinal, a morte é eterna; tal qual nossa alma, ela vive para sempre.

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Desculpem-me pela demora absurda para postar algo. Pensei até em escrever algo para o ano novo, mas nenhuma ideia veio-lhe à mente... Bem, desejo a todos um feliz 2012. Que Deus abençoe à todos.

Obs.: esse texto foi escrito baseado em Minoru-san, do anime/mangá Chobits. Estava lendo o mangá da série, quando vi a passagem em que Minoru conta o dia da morte de sua irmã... Claro, viajei um pouco no texto, e as sensações retratadas aqui foram de acordo com o que eu mesma senti - estando na pele do personagem. Bem, é isso.
Espero que não tenha saído tão ruim.

Até logo...