quarta-feira, 4 de janeiro de 2012

Eternidade


Odiava aquele lugar. Odiava aquele cheiro puro e artificial; o odor insuportável da doença e da tentativa de cura; da morte e da esperança de vida. Virei-me na cadeira - tão desconfortável - e fitei a única janela daquele triste quarto de hospital. O céu, ironicamente, estava azul, ignorando totalmente a reviravolta que acontecia em minha vida - na vida das pessoas que eu mais gostava.
Afinal, de que serve a vida, se podemos perdê-la tão rapidamente? Por quê ela é tão frágil e fraca?Por quê? Diga-me, Kaeda: por quê?
O barulho das máquinas, aquele bip bip doentio, continua tocando fracamente. Posso sentir a aura da morte rondar meus pés e entrar debaixo da cama do hospital, posso ver como ela se entranha na pessoa que mais amo no mundo e mais linda, mesmo tão pálida e vestida com aquela camisola de hospital. É triste ver como sua vida... todas suas lembranças... estão sendo seguras por máquinas. Máquinas. Pedaços de metal e fios. Meras máquinas.
Máquinas. Elas não possuem ossos, ou músculos; são apenas parafusos e fios, todos emaranhados numa confusão esquisita. Uma imitação de nós, homens, que nem de longe se parece com os humanos. Sim, são isso as máquinas.
Máquinas são mais fortes que nós. As nossas criações, invenções inúteis, podem viver por mais tempo, duram gerações. E nós - nós morremos. Ela... Ela prometeu-me que ficaria comigo, que me acompanharia, que não me deixaria sozinho... E está deitada nessa cama de hospital. Com a vida segura por essas máquinas nojentas...
Vi um pássaro cortar o céu, lá fora. As nuvens são seus limites, e suas asas são sua vida. Queria eu voar. Voar e me perder naquele azul puro, cortar as nuvens e respirar aquele ar nostálgico. Ao invés disso, estou aqui. Você, Kaeda, também está. 
Fixei meus olhos no rosto pálido. A cabeça da garota descansava pesadamente no travesseiro, fazendo curvas naquele objeto fofo. Havia fios por todos os lados, na menina, e seus cabelos, antes curtos, estavam longos e sem brilho. Tal qual uma máquina. Meus olhos começaram a queimar, quando percebi que ela me fitava também, e me dirigia um sorriso leve e doce.
Deus, não deixe que ela vá... Faça com que fique.
- Kaeda... - principiei, mas não havia palavras. Para que dizê-las, então? Elas estão lá fora. E eu não posso buscá-las.
Não sei por quanto tempo fiquei ali, olhando-a. E não sei quando seus olhos começaram a fechar-se, lentamente, como se estivesse decorando cada expressão de meu rosto. Meus dedos apertavam os dela com força, até que senti que seria capaz de tirar sangue de sua pele frágil. Seus olhos continuavam a pestanejar e a fechar-se. Cada vez mais eu a via caminhar para o mundo da escuridão... Até que, sem aviso prévio, Kaeda fechou os olhos totalmente. E nunca mais os abriu.
Oh, a morte, doce e lenta como ela é, levou-a em seus braços apertados e esqueleticos. Sim, podia ver ambas, ali, e podia sentir o cheiro. O hospital, o quarto, as máquinas - tudo, tudo continuava ali... Até mesmo aquele corpo pálido e adoecido; morto. Eu poderia fingir que ela estava viva, e poderia conversar com ela, não? Sim, poderia. Tudo era como antes... Mas ela abandonou-me. Não havia alma naquele conjunto de carne à minha frente, não havia alma e nem seu coração batia. Afinal, é par isso que nosso corpo serve, não? Mas pensar nisso... não tirava de mim a dor. Minha irmã, que me amara e que amei, me abandonou...
E não tinha pretensão de voltar. Nem hoje, nem nunca. Afinal, a morte é eterna; tal qual nossa alma, ela vive para sempre.

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Desculpem-me pela demora absurda para postar algo. Pensei até em escrever algo para o ano novo, mas nenhuma ideia veio-lhe à mente... Bem, desejo a todos um feliz 2012. Que Deus abençoe à todos.

Obs.: esse texto foi escrito baseado em Minoru-san, do anime/mangá Chobits. Estava lendo o mangá da série, quando vi a passagem em que Minoru conta o dia da morte de sua irmã... Claro, viajei um pouco no texto, e as sensações retratadas aqui foram de acordo com o que eu mesma senti - estando na pele do personagem. Bem, é isso.
Espero que não tenha saído tão ruim.

Até logo...

Um comentário:

  1. Ver a morte de uma perspectiva pessimista é ruim, e vê-la de forma otimista pode sair como rejeição a vida que temos... Minha opinião? Bem, vou continuar vivendo e vou morrer. Depois disso, respondo qualquer pergunta.

    Seus textos nunca saem ruins, mas não senti a emoção nesse texto... Seria melhor se descrevesse mais o ocorrido, talvez como se estivesse fazendo descrição de um quadro; mas sem clichês, claro.

    Sankyuu, feliz 2012, apesar de eu realmente prender minha língua para falar isso ultimamente; para mim, se todos tentassem ser bondosos e felizes de verdade, deveriam fazê-lo no ano todo e não apenas no começo dele.

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