quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

Mordaça de sangue

As garras. Alguém tire de mim essas garras, tão longas, tão apertadas. Tirem de mim as garras, amarras, mordaças. A pele lateja, a dor vai embora. O que é dor, afinal? Um filete de sangue em meio seu corpo, ou uma gota vermelha na face do morto? Ah, meus braços querem chorar tão alto quanto minha alma, então tirem de mim essas garras. 

segunda-feira, 29 de dezembro de 2014

Um. Dois

Ah, cobaias de deus
Nós somos cobaias de deus
- Cazuza

O ar parecia pesado. Mais dois passos, e estaria lá. Por que aquele medo? Não havia motivos para temer aquele poço. Mas a escuridão reinava. 

             Um, dois, o ar era pesado, pesado demais. As paredes estavam tão longe.... como um templo. Um templo em chamas, com a fumaça acre invadindo o peito, lento, combustão.
 
             E lá estava.

           O peso dobrava o chão em dois, três. Fendas. Penas. Mas lá estava. O ar podre. Morto. Morte. Onde estava ela, a dona morte, senhora da vida? Eu via suas mãos. Seus dedos nodosos querendo alisar meu cabelo e beijar minha face com a ponta das unhas longas e vermelhas como as das putas da esquina de minha casa. Olá. Ah, não, mas esses que eu sentia no ombro eram outros. Maiores, fortes.

           A mão da morte é tão pequena e delicada. 

         Essas eram pesadas. Queriam me tirar dali, me sufocar com o que achavam ser conforto. Me puxar, continuar puxando, e puxando. Eu só queria estar ali. Estar com ela. Não me leve! 

          "Está tudo bem".

          O quê? Por que precisaria estar bem? A vida. Eu era capaz de vê-la, seu resquicio esquecido no liquido escorregadio do piso. A névoa. Morte. Suspiro. Vida. Suspiro. Morra.

          Um, dois. O número perfeito.

          
          A morte ainda não alcançou sua alma, disse alguém. As mãos. Não me largue. Não, me largue.


      No escuro, rostos anônimos. Olhos sem nomes. Aves carniceiras. Saiam, saiam. Vocês não entendem. Buscam o morto como ela busca a morte, mas não entendem. Não como eu. 'Você não precisa ver isso". Que tolo! Imbecil. Venha cá. Eles te temem, logo à você. Logo seu alívio, senhora. 

        Sua mão fedia à vodka e cerveja. Seu hálito cheirava a tristeza, mas estava bem. Ele disse que me protegeria, cuidaria de mim. Engraçado. Ele não entende. Seu cérebro confuso não conseguia entender. Não existe estar bem. Ela não precisa estar bem. 

         Venha. Ela te quer tanto, dona morte, mas tanto. Chegue um pouco mais. Abra um pouco os seus braços finos, com suas pulseiras baratas. Sua mini-saia fedia à sexo, seus olhos cheiravam à amor. Venha, venha amá-la. Não há amor maior que seu, não estou certa? Sua safada. Se dá pra todos. Não vá desistir agora, que seus lábios carnudos estão tão próximos aos dela, aos meus, aos dele. Beije, rebole. Faça por merecer.

          Restos humanos. O que restou, o peso da morte num corpo vivo. Puta. Volte aqui. Puta. Pague por isso. Pague. Leve-a! LEVE-A! A dor era essa: quase foi, mas estava aqui. Quase morreu, mas estava viva. 

          Quem sabe da próxima?, a puta disse. Traidora.  

          Um, dois. Quase.

           Um, dois, quem sabe na terceira? 

           Você a quer. Pode querer. 

          Um, dois. Me tiraram de lá. O escuro era grande. O peso das mãos me afundavam mais fundo na luz. Eram grandes, grandes e velhas. "Vou apertar a sua mão e ficará tudo bem".

Tudo bem.

Bem. Dois.

domingo, 14 de dezembro de 2014

Tirem de mim as penas

Socorro.
         Socorro, eu não estou sentindo nada. NADA!
         Nem medo, nem calor, nem fogo, não vai dar mais pra chorar, nem pra rir...

         Socorro, eu estou sentindo, sentindo muito. Demais. Tirem de mim, me deem de volta o nada tão frio e tranquilo.
        Não quero amar, nem dor alguma. Não quero você, e - tudo bem -, também não quero a mim. Quero o vácuo, o universo escuro, o socorro da ficção.

II
        Meu corpo confunde os sinais da mente; ou será que meu coração é  que confunde os sinais do corpo?
        Me tirem daqui. Eu não quero essa água. Ela quer escorrer. Ela está escorrendo.
        E a ladeira é longa, vertical. Mas ignorem, estou louca. A loucura toma de mim o que havia de melhor. O pior é forte demais para ir embora.

III
       Se me perguntasse algo que mais quero agora, eu não gostaria dos sinais de minha carne doentia.
       Doente. Doente. A doença está latente, o diagnóstico foi ignorado.
       O que me faz sempre voltar àquela cama fria, a febre ainda presa nos lençóis? A doença, sim. Essa loucura vã que me mata aos poucos.

IV
       Pouquinho. Pouquinho.
       As palavras não cessam nem cerceiam. Os erros. Eles estão aqui.

V
       Direta. Preciso de direção. O mapa astral não me ajuda; seu astral também não.
       Me explique, então, o que é isso. O que somos nós? Como sentir algo desconhecido?
       E se nada for real? As teclas pareceriam certas.
       É a loucura. Loucura em todos os pontos e virgulas. Dedos, desavenças e teclas.
       Tac-tac-tac-tac. Amor.

VI
       É a depressão suave da geografia. Alguém me desbrave. Me mapeie. Alguém se importe.
       O pouco está valendo. Ele sempre foi muito.
       Mas há algo de solitário naqueles lençóis.
       Ele. Eu. O ponto nos separa, ou é o que nos une?
       Seu sorriso. Meu. Seu. O nosso é um mistério, um segredo à 7 mais algumas chaves.
       E cadê elas? Quem as perdeu?

VII
       Me diga.
       Socorro.
       Estou sentindo.
       É o medo, calor, fogo, choro - riso. Você consegue ouvir?
       Socorro. Isso não é um grito. Essas penas. Tirem de mim as penas.
       Amor. Dor. Cadê o nada?
       Apenas socorro.

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

E fomos

O caminhar ligeiro era interrompido pela dor, o conhecimento descompessado de quem não quer. A luz no lado certo, o frio da parede em minha pele leve e dura. Nela, os ossos. Nela, eu.
Eu não saberia dizer se em meus olhos havia dor, nojo ou prazer. Muito menos onde um começa e o outro termina. Seu corpo, que poderia e talvez seja o meu, tremia. Tremiamos. Os musculos retesados pelo pavor de não ser o que quer. Ou quer? Queremos? Qual o limite da inexistência, o limiar do homem? Somos pele, osso e corpo, ou alma e razão? Eu poderia responder com muito, mas todas as palavras me parecem fúteis e inuteis. Tanto para mim, quanto para ele. Porque somos iguais, apesar do sexo doente e dos olhos meio mortos. Somos, eu e ele; meras sombras do querer ser.
E foi. E fomos.

terça-feira, 29 de julho de 2014

Corridas rumo ao mesmo

Eu só queria correr. Ir longe, para o mais longe que minhas pernas sozinhas conseguissem chegar. Longe da cidade, das pessoas e dos relacionamentos. Sem palavras, chaves ou palavrões nas paredes. Apenas eu, o céu e o pouco que me resta. Queria correr pelo campo e não me preocupar com os cortes em meus pés ou braços. Só correr e correr mais um pouco. 
E, por incrível que pareça, esse seria o meu ato mais corajoso. Fugir seria meu último grito de coragem. O grito de coragem que não acontecerá, porque continuarei aqui. Nessa cidade, com essas pessoas e com esses relacionamentos. Continuarei exatamente aqui.

segunda-feira, 28 de julho de 2014

Dando replay

Existem coisas tristes por aqui. Estou cansada, muito cansada. Em minhas costas, nada além da roupa que cobre meu corpo, mas sinto que há algo enorme aqui atrás. Algo me puxando, me puxando, me tragando como o último cigarro da cartela daquele velhinho da esquina. Não vejo futuro nisso. Nem naquilo. E estarei sozinha, independente de quem seja a pessoa. Não importa seu sexo. Seu status. Sei o fim disso. Sei o fim daquilo. Assisto à tudo como um filme desastroso, triste e choroso. Desculpas por ser tão rude. Desculpas por ser tão fraca. Não consigo me afastar, mas sei que nada me aproximará. Só resta esse aperto no peito - de novo. E de novo. Como o replay de um filme que não quero ver.
Por que eu não canso disso? Por que esse destino invisível não pára de brincar comigo? Não faça isso. Não. Por favor. Só não faça isso de novo

terça-feira, 22 de julho de 2014

"Muito prazer, meu nome é otário"

Nasci pobre e cresci otária. Besta, idiota. Do tipo que sorri para desconhecidos na rua e ajuda qualquer um que venha pedir socorro, mesmo sabendo que posso me prejudicar. Nasci sem choro, cresci calada. Deixei que mandassem em mim, que calassem minha voz de criança. Aprendi que, as vezes, a melhor palavra é o silêncio, mas a pior dor é a de estar quieta. Guardando tudo para si; fugindo do mundo. Os olhos te perseguem, te vigiam. Você sabe disso. Eu também sei. Resolvi soltar o verbo, e os olhos se transformaram em farpas. Algumas machucaram meu corpo, fizeram minha alma sangrar. Porque é assim que funcionam as coisas. É muito melhor uma pobre otária, besta, idiota e silenciosa, do que uma otária que fala. E pra quem ouvir? Ah, por favor! Deixem-me morrer otária, mas não tirem mais a voz que só à mim pertence.