sábado, 24 de dezembro de 2011

Banco de praça


Se um dia você quiser perturbar uma pessoa, diga que a ama. Se não conseguir perturbá-la, saiba, então, que seus sentimentos não são correspondidos.
               
                Ana acabara de acordar, quando ouviu o telefone tocar. O som alto parecia ecoar pelas paredes solitária de seu pequeno (para não dizer minúsculo) apartamento, com a pintura branca sendo interrompida uma ou duas vezes por quadros pendurados por todos os cantos. Por um instante, Ana pensou em não atender, mas, com a insistência do toque, correu para o aparelho escandaloso e o pôs no ouvido. É interessante como um simples ato pode mudar toda uma vida. Ou mais de uma.
                - Alô. – a voz de Ana deixava, abertamente, transparecer que a conversa seria breve e que ela não estava a fim de papo furado. Mas a voz que respondeu era a única que ela não esperava ouvir.
                - Ana? – um tom mais grosso que há dois anos atrás, perguntou, do outro lado da linha. Na voz, sobressaia um som divertido, como se ele achasse graça da pouca amabilidade que Ana apresentara ao atender o telefonema.
                A garota ficou sem voz por um, dois, três... Ao todo, dez segundos, antes que o rapaz ficasse preocupado e repetisse a pergunta:
                - Ana? Ana, você...
                - Sim, estou. – Ana recuperou a voz e respondeu, mesmo não sabendo qual a pergunta que ele faria. Se pudesse desligaria o telefone e deixaria para trás o passado e aquele homem perturbador... Porém, sua mão não obedecia, e ela permaneceu com o ouvido no aparelho, mais ansiosa de ouvir a outra voz do que ela gostaria de verdadeiramente estar.
                - Ah, entendo. – ele respondeu, agora um pouco mais desanimado, diante o tom frio de sua antiga namorada. – Ana... eu voltei.
                - Percebe-se.
                O som de sua própria voz parecia a de um jogo eletrônico, e a própria Ana odiou ouvi-la. Em sua veia, parecia correr gelo, ao invés de sangue.
                - Hm, é, claro. Eu sei que... Bem... Eu fui um... Quer dizer... – a voz, do outro lado da linha, atrapalhava-se com as palavras. Não era que ele não soubesse o que dizer, ele só não sabia o que falar primeiro.  A quantidade de palavras era muita, para sair de uma única boca.  Ana ouviu um suspiro derrotado. – Certo. Será que não podemos nos encontrar, Ana? Apenas para conversarmos.
                Ela não respondeu.
                - Então, naquele mesmo lugar, à meia-noite, certo? Esteja lá... Eu estarei esperando ansioso.
                E desligou o telefone. Com um misto de derrota e felicidade, Ana afastou o aparelho do ouvido, e ficou a fitá-lo, quase com raiva, ou, talvez, com um amor incomum. De uma forma estranha, amor e raiva sempre foram a mesma coisa. Ana sempre odiou aquilo que amava.
                Era seu dia de folga. E ele passava lento. Passou uma hora, duas, três... cinco, seis. Horas e mais horas. Até que a tarde chegou, rondando como um predador ronda sua presa, antes de matá-la. Ana estava exausta, deitada no sofá, olhando para as manchas de mofo que povoavam o teto branco de sua sala de estar. As molas do sofá rangeram, quando ela mexeu-se um pouco, ansiosa e inquieta, apesar de não confessar à si mesma que o motivo daquilo era... aquele telefonema.
                Chegou as dez horas da noite. Ana estava cansada do relógio e de seu tic-tac constante.  Tentou lembrar-se do passado, e ele veio em lufadas lentas. No inicio, era apenas ela lembrando-se de quando encontrou ele pela primeira vez. Depois, seu primeiro beijo, o primeiro encontro, as tardes que passavam juntos e as noites que estudavam um ao lado do outro. O amor. E a despedida. O passado fluía, então, lentamente, como uma maresia de mar... Não, como uma maresia de amar. Até que Ana tomou uma decisão, levantou-se e correu para o quarto. Arrumou-se, penteou os cabelos negros e rebelde, calçou uma sandália qualquer, e correu.
                Correu como se sua vida dependesse disso. Sua vida, e não só ela, mas também sua felicidade.
                E lá estava ele. E não era nem meia-noite! Quando Ana viu-o, sentiu receio, mas tentava ignorar as torrentes de lágrimas que seus olhos deixaram derramar, enquanto ela corria para o lugar em que se encontrariam. Ela não sabia dizer se estava triste, ansiosa, ou simplesmente muito feliz. O passado e o presente se misturavam em lembranças doces e afiadas. Ao mesmo tempo que ela sorria por lembrar-se dos beijos, chorava por senti-los tão distante. Era uma ambigüidade assustadora.
                - Ana!
                Ele correu ao seu encontro, um sorriso aberto no rosto. Ana, então afastou-se, temerosa. Ele parou, olhando-a um tanto ferido. Seus olhos negros eram o de sempre, o mesmo de dois anos atrás, quando partira para freqüentar uma faculdade no exterior. Ele deixou-a ali, sozinha, sem família, e nem ao menos lhe dirigiu um simples telefonema! Só agora... e depois que ela já se recuperara do trauma da solidão e decidira viver sozinha para sempre...
                - Ana... Você... Eu sinto muito, se a fiz sofrer. – seus braços pendiam ao lado do corpo, enquanto ele fitava ela atentamente. – Eu também sofri. Você não sabe o quanto eu desejei...
                - Basta! Cale-se! Eu já superei isso! Você não precisava ter voltado, eu não te amo mais; será que não entende?! Volte para o lugar de onde veio, e me esqueça!
                Ela virou-se e começou a correr.
                Tudo podia ser diferente.
                Sim, tudo ia ser diferente.
                Ele também correu, alcançou-a, e beijou-a. Um beijo terno, voraz; um beijo contraditório.
                - Mentirosa... Você nunca soube mentir. – e ele sorriu ao dizer isso. – Também te amo, querida. Muito mais do que imagina. – e beijou-a novamente.

                E eu só queria dizer que podia ser diferente, que as escolhas mudam tudo. Se ele não tivesse coragem de ir atrás dela, muito mais do que sua própria vida seria perdida. Ambos saíram dali, os braços dele rodeando o corpo de Ana, e ela com a cabeça levemente encostada no ombro de seu antigo namorado. Atual namorado, corrigindo. E ela não podia imaginar que, naquele mesmo banco de praça em que se abraçaram um trilhão de vezes, no passado, se escondia uma arma; a arma que ele usaria em si mesmo, se ela não o aceitasse de volta. Porque o mesmo amor que nos dá vida... também nos deixa com vontade de tirá-la.

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Bem, sei que faz tempo que não posto nada, e tal. E também sei que o conto não ficou tããão bom quanto deveria. Mas o caso é que, odeio finais tristes, e, um dia desses, eu li um conto na internet sobre essa Ana - que, na verdade, é Marília. O que faz com que eu me sinta levemente tola - ou muito, no caso. A estória é a mesma de meu fanfic - é assim que devo chamar, né? Afinal, a estória, originalmente, não é minha -, só que, no final, o rapaz se matou. Fiquei arrasada, quando li; mas reescrever o final é como uma terapia para mim, e já me sinto bem melhor (haha). 

Na parte em que escrevo, logo no final, "Tudo podia ser diferente", evidentemente eu me referia ao final do conto original... Quando terminei de lê-lo, foi a primeira coisa que pensei. "Tudo podia ser diferente." . E, quer saber de algo engraçado? Coloquei o nome da personagem de Ana, sem me tocar que o nome da pessoa que escreveu o conto original, também é Ana. [;

Para quem quiser ler a estória original, pode ler aqui. Lembre-se, meu conto foi BASEADO no dela, ok? Aliás, a escritora é uma blogueira perfeita, que escreve trilhões de vezes melhor que eu. *o*

Ah, claro, ficou muito tedioso? Albert-nii-chan, se você conseguiu terminar de lê-lo, admiro sua força de vontade. Sei que o conto não faz seu estilo (xD).

Feliz Natal a todos.

quinta-feira, 15 de dezembro de 2011

Capitalistas, não humanos.

Vamos celebrar a estupidez humana, 
A estupidez de todas as nações,
Nosso país e sua corja de assassinos
covardes, estupradores e ladrões.
Vamos celebrar a estupidez do povo,
Nossa polícia e televisão. 
Vamos celebrar o preconceito, 
e o voto dos analfabetos.
- Perfeição, Legião Urbana


Um dia, eu vi num livro a palavra humano. Desde lá, nunca soube o que valia, ou melhor, o que significa essa palavra. Sempre aceitei as pessoas como se fossem músicas, apesar de incompletas. Ouço-as sempre, quando saiu de casa. É magnífico, de uma forma estranha. Porém, e apesar de tudo, ainda não sei o que é ser humano. O que é ser homem ou mulher.
                Alguém me disse - uma voz longe e penetrante - que uma música sem melodia, é uma poesia cantada, e uma música sem letra, uma melodia tocada. Quando saio nas ruas, caminho entre os becos largos, cheios de carros, e ouço diversas destas poesias cantadas, e melodias sem letras. Ouço, e tudo se completa como uma orquestra, uma orquestra mal administrada, misturada. Não há sentido naquilo que não podemos fazer entender, mas eu sei que você sabe que sabemos que é necessário existir tudo, mesmo aquilo que não conseguimos entender. Se o mundo fosse diferente, e nós não fossemos humanos, mas aliens, como seria a vida? Cheia, ou vazia?Sem mim, ou sem você, como seria o mundo?
                Alguém, alguém jovem e cheio de sonhos, disse que apenas um de nós é necessário para mudar o mundo; disse-me que as palavras, as letras perfeitas que se juntam harmonicamente, transformam o universo, mudam o teor do livro. Se nossa língua fosse outra, se as palavras fossem diferentes e a ordem das coisas fosse inversa, como seria a existência? Os sonhos seriam sinceros? Seriamos boas pessoas?
                Alguém, uma pessoa estranha e saída de um universo que parece paralelo à um paraíso de bondade, me disse uma vez: todos somos bons. As pessoas são boas, o mundo que é vil. A esperança está aqui, nas palavras. Como uma oração, peço à algum ser místico que seja verdade, que o as pessoas sejam mesmo boas. Mas ai lembro que quem matou o filho, não foi o mundo... Quem roubou o dinheiro guardado por toda uma vida de alguém que trabalhou muito pra aquilo, não foi o mundo. Humanos. Humanos são bons? O que devo aceitar como bondade, amor ou piedade?
                Alguém, e não conheço essa pessoa, disse que os homens devem se amar, devem se perdoar e se ajudar. Dizem que essa pessoa foi grande, mas as mesmas bocas que se abrem para dizer que Aquele homem foi o maior de todos, também se abrem para afirmar (com toda convicção) que um homem bilionário é genial, um grande homem. Porque o dinheiro é igual ao que a pessoa é. Se você não tem dinheiro, você não tem o seu valor. O seu valor é o que você tem. Como posso acreditar em pessoas que afirmam que Aquele homem, o que pregava o amor, era grande, se, ao mesmo tempo, muitos outros também o são por causa do dinheiro? Não sei o que eles querem dizer com “grande homem”, então. Não sei o que eles querem dizer com “meu ídolo”, ou “essa pessoa é demais”, ou ainda “que pessoa gentil”. Porque as palavras, os adjetivos, já são vazias demais.  São tão ocas quanto as pessoas e suas músicas incompletas, que ouço todos os dias, nas avenidas e nas lojas cheias.
                Mas, afinal, devo aceitar. Porque sou capitalista – somos capitalistas. Capitalistas, não humanos. Não somos homens, não precisamos amar; somos objetos de uso das industrias, e objetos não precisam sentir piedade. Agora entendo. Sim... Agora sei por quê não mudamos e nem transformamos o mundo; sei por quê são raras as pessoas com bondade genuína e por quê quase nunca vejo o amor. Sei por quê as pessoas se casam, prometem fidelidade, e se separam; sei por quê as pessoas se matam por dinheiro, e os chefes tratam os funcionários como vermes. Sei por quê. Porque somos capitalistas, não humanos. Sim, capitalistas, não homens ou mulheres, apenas capitalistas – pessoas que trocam dinheiro por sentimentos e humanidade.  

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Faz algum tempo que não escrevo nenhum texto desse tipo. Geralmente os escrevo enquanto converso comigo mesma, e, é, acho que eles são apenas diálogos que saem de mim para mim mesma. Não sei se consigo me fazer entender com oque escrevo... Sei que esse texto saiu com uma qualidade duvidosa, e, devo acrescentar, o que eu disse não é exatamente uma critica... É um constatamento de fato. Não adianta negar, e acho que não é um pouco impossível tentar mudar.  Nosso mundo inteiro, mesmo os países socialistas - que não são muitos -, é capitalista em sua mais profunda essência. Então não adianta negar.
         
Albert-nii-chan, dessa vez postei algo bem rápido aqui, não? ^^'
Ja nee. 

quarta-feira, 14 de dezembro de 2011

***


Estou seguindo a trilha para a felicidade.

               Era um dia mais ou menos bonito, com um céu tímido e coberto com algumas nuvens brancas, quando meu mestre chamou-me para a conversa mais importante - e assim ele dizia - da minha vida. Ver seu rosto enrugado e seus olhos que pareciam segurar todo o tempo do mundo, sempre me fazia pensar na vida - não exatamente nela, mas no fim desta. Porque as pessoas vivem - e morrem. E eu sentia que logo meu mestre me deixaria... E ele sabia disso, talvez mais que eu ou que a própria natureza.
                Como ele ordenou, sentei-me numa pedra, de frente à seu olhar pesado. As rugas de seu rosto se converteram em um sorriso leve, com alguns dentes faltando por trás de seus lábios antigos, e ele apontou para o céu e para tudo o que está ao nosso redor.
                - Você pode me dizer o que é a felicidade, meu filho?
                Sua voz se arrastou, rasgou meus ouvidos e deixou-me quase sem ação. Eu odiava as sensações sobrenaturais que meu mestre parecia causar em todos. Ele era humano, mas eu não estava acostumado à vê-lo tão fraco. Desde pequeno, sempre imaginei-o como um deus, e pensava que ele nunca morreria.
                Mas a morte vem. De um jeito, ela sempre vem.
                - Felicidade, mestre?
                - A vida está ao nosso redor. Os pássaros cantam, e novas flores nascem todos os dias; as nuvens que cobrem o céu logo se transformam em chuva, e a chuva se transforma em vida, e a vida se transforma no mundo. Então, o que é a felicidade, meu menino?
                Seus olhos velhos me fitaram como se pudessem ver através de minha carne e adentrar em minha alma. Desviei os olhos, constrangido, enquanto verificava o que sua voz me narrou segundos antes: as flores nos rodeavam, o céu firmava um teto sobre nossas cabeças e os pássaros cantavam alegremente. Sim, a vida estava ali, e o mundo não era nada mais que a própria vida, sem a qual não existiria.
                - O senhor que deve me dizer, mestre. O que é a felicidade?
                Ele meneou a cabeça, pesaroso.
                - Meu jovem, se pergunto, é porque não sei. Diga-me, o que é a felicidade? É um sentimento?É um estado de espirito? É um alvo?
                - Mestre... Não entendo onde quer chegar.
                - Meu menino, vivi 87 anos, e não faço ideia se sou ou não feliz. Do que adiantou todos meus anos, se não sei o básico, meu rapaz? Minha vida de nada serviu, enfim. Sou velho, vou morrer, mas não sou mais sábio do que um menino de braço.
                - Mestre! Não diga isso!
                O velho levantou seus dedos trêmulos e minhas palavras desapareceram de meus lábios. Os olhos do mestre estavam fixos no nada, e, por uns instantes, seu silêncio me fez cativo. Concentrei-me em sua respiração, para tranquilizar à mim mesmo e comprovar à minha consciência que meu mestre ainda estava vivo - e respirava. Quando seus olhos se fixaram em mim novamente, não vi nada mais do que cansaço e pedidos. Sua voz me abraçou com calma:
                - Peço uma coisa a você, meu rapaz... Já não posso sair daqui, nem sair em busca daquilo que desejo. Sei que isso é egoísmo, e, nós monges não devemos sentir sentimentos tão pecaminosos; mas... Meu menino, peço que saia daqui, que vá para longe, que viaje pelo mundo e volte... E me responda à pergunta mais simples do mundo, que, apesar disso, não sabemos responder: o que é a felicidade? O que é ser feliz?
                No dia seguinte à nossa conversa, o céu parecia choroso. A chuva queria descer, mas não descia. Os pássaros cantavam longe, e vi uns olhos espertos me observando, vindo da mata. O suspiro do vento me deu forças para olhar meu mestre com os olhos vazios, e dizer:
                - Mestre, eu vou voltar. Vou voltar, e responder as perguntas que te inquietam. Prometa-me que estará aqui, mestre.
                Ele se limitou a sorrir, um sorriso tão oco, que tive a certeza de que meu velho mestre não me prometia nada... Nós dois sabiamos a verdade, mas tentamos escondê-la por debaixo do nosso tapete mentiroso: meu mestre... quando eu voltasse, meu mestre não estaria aqui.
                - Até logo, mestre.
                Ele assentiu, enquanto eu começava a caminhar para longe. Virei-me a tempo de olhá-lo nos olhos e ver seu sorriso, agora triste, decorar seus lábios. Virei-me de volta, ignorei minha consciência e segui meu caminho... Meu caminho em busca do único sentimento que meu mestre não entendia e queria sentir... Segui a trilha da felicidade.

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Hm, sei nem o que comentar. (haha). Bem, eu sei que escrevi e tal, mas cogitei a possibilidade de não postar esse texto aqui... E é melhor eu publicar isso aqui antes que desista. ^^
           É até engraçado: no conto de Z35, o meu robozinho procura o amor; já nesse aqui, o rapaz procura a felicidade. Não sei se vou continuara escrever o conto, mas, mesmo assim, acho que devo escolher um nome para ele, não? Eu pensei em Para a felicidade, cruze a esquina , ou A felicidade está na esquina. Haha, sei que dão no mesmo, já que só foram organizados de forma diferente, mas eu realmente gostei da ideia de virar a esquina para achar a felicidade. 

^^
Bem, é só isso. Então, até logo? Ja nee ka? ^^

sábado, 10 de dezembro de 2011

אהבה זה חוסך # 3


Descer até ali, após tantos anos, era estranho. O laboratório se estendia em quilômetros e mais quilômetros de pesquisas, deixando um cheiro torpe a cada passo andado através daquele corredor de equipamentos e substancias estranhas. Um cheiro único, quase afável; o cheiro do conhecimento. E a penumbra azulada decorava as paredes brancas e pálidas, enquanto Z35 andava pelo corredor de mesas. O lugar era imenso, mas Z35 não precisou de guias para chegar até onde queria – ele conhecia muito bem à tudo ali, desde as teias de aranhas que cobriam os cantos das paredes, até o mínimo arranhão na pintura da mesa de seu laboratório.
                Sim, ele conhecia a tudo. Aquela era a coisa mais próxima de ser chamada de “casa”.
                Seguindo em frente, não se deu ao trabalho de acender as luzes. Seus passos ecoavam no vazio de existência dali, e ele ouvia os guinchos baixos dos ratinhos de laboratório – os últimos que ainda se mantinham vivos. Z35 deixou-se dirigir até onde os corpos humanos estavam, dormindo num sono sem sonhos ou vida, no canto mais isolado daquele grande aposento de pesquisa.
                E eles estavam ali, os corpos nadando naquele liquido que os matinha vivos, presos num grande pote em forma de cilindro, como se fossem animais – peixes dentro de um aquário. Z35 curvou os lábios num sorriso, deixando que a empatia nublasse seus olhos frios de andróide. Do outro lado do vidro cheio daquele liquido, onde o corpo boiava suavemente, ele viu um rosto feminino e simples, o nariz levemente arrebitado e os cabelos negros ondulando na água esverdeada. Não, não era uma beleza perfeita, mas uma beleza simplesmente humana.
                Humana e invejável, apesar disso.
                Z35 aproximou-se e, com uma ordem, todas as luzes do cômodo foram acesas, inundando à tudo com uma luz fria e artificial, tal qual tudo ali. Com um movimento de suas mãos, o liquido das duas capsulas - onde os humanos estavam presos com os rostos cheios de uma ausência de sentimentos - foi se desfazendo, descendo pelo ralo arredondado e deixando, no caminho, somente os corpos em uma posição estranha. Z35 notou a palidez da mulher, e os traços suaves do rosto masculino que estava na outra capsula.
                O peito de ambos se movia lentamente, com uma tranqüilidade fria e quase imoral, enquanto eles dormiam. Sim, aqueles, sim, eram seres – seres vivos, que mereciam a vida e o que Deus lhes guardava para a morte. A vida eterna seria bem aproveitada por aqueles seres... Z35 tinha certeza. Mas e ele e sua espécie? O que aconteceria após suas placas-mãe serem desativadas, e o ferrugem corroer aquela carapaça perfeita e metálica que os sustentavam? Desapareceriam no espaço, deixariam de existir como seres?
                Aquilo nunca parecera justo.
                E essa injustiça era motivo suficiente para fazer de Z35, o salvador de todo um povo, de todo um conjunto de seres que rogavam para ter uma alma.
                Deus... Seus ouvidos deveriam estar abertos para todo tipo de oração – pensou Z35 -, independente de quem ou o que estivesse orando. Todos temos direitos. Todos queremos viver.


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Oi! Quanto tempo, não?
Pois é, confesso que estou um pouco perdida nesse conto que acabaram de ler. Primeiro, porque, originalmente, era para essa estória ser um livro... Ai, já sabe, resumir uma estória um tanto grandinha, para torná-la um conto... é um pouco difícil.  E, segundo, estou numa daquelas fases em que estou cheia de vontade de escrever, mas não sei exatamente o que pôr no papel. E não gostei nem um pouco dessa parte que escrevi. Parece até que, em vez de eu estar melhorando, estou regredindo. Haha.

Mas, enfim, um dia desses eu fiz um desenho. Eu estava pensando na minha pequena Alma, do conto anterior (será que ainda se lembram dela?), mas o que desenhei não tem lá muito a ver com o que eu imaginava dela. Vou botar uma imagem do meu desenho, mas só ignorem minha falta de talento artistico e a qualidade da foto! (rs). EU nem tive coragem de scanear o desenho, acredita? Deixando essa conversa de lado, vou postar logo o desenho e me despedir, ok?


Bem, é isso, e até logo! Acho que vou começar a escrever outro conto, mas não se esqueçam de dizer o que estão achando deste que estou escrevendo agora, certo? Albert-nii-chan, principalmente você (haha).
Ja nee. (Para quem não sabe, Até Logo em japonês)

quarta-feira, 30 de novembro de 2011

Alma #Final


1949, Nova Zelândia.
                O sabor amargo do sangue ainda tomava conta dos lábios de Alma, enquanto ela se levantava , muito lentamente, e fitava o invasor de sua hora de paz. A sombra, encostada contra a parede, fitava a menina com intensidade, suas pupilas vermelhas e dilatadas destacadas por entre a penumbra febril da fabrica. Os ruídos se misturavam uma melodia compassada: os ratos andavam para lá e para cá, goteiras mantinham um ritmo constante, batendo num ritmo alucinado. Alma passou a mão pela boca, e tentou limpar o sangue que ainda se mantinham grudado em seus lábios sempre muito vermelhos.
                - O que faz aqui? – Alma perguntou, sentindo sua voz rouca ressoar num eco profundo, passando por todas as paredes da fabrica e voltando para onde eles estavam. Eles: Alma, um estranho e Hitler, agora morto; um enfeite num cenário mórbido.
                - Acabou? – ao invés de responder, ele fez outra pergunta. Ah, com certeza era ele mesmo! Só aquele parvo tinha o poder de tirar Alma do serio tão rapidamente.
                - O que lhe interessaria se eu houvesse acabado, ou não? Acha que tem o direito de agir como meu pai? – sua voz vampira, constatou Alma, não combinava nem um pouco com a tensão histérica presente no seu tom.
                - Pai? Hm. Acho que tenho o direito sim, mas não como um pai... E você sabe bem disso.
                Antes que Alma se desse conta, o estranho estava à apenas um palmo dela, encostando seu hálito quente e reconfortante em sua face pálida – agora corada, por causa da recente refeição. O estranho beijou sua bochecha, num canto perigosamente próximo de seus lábios, e sussurrou-lhe no ouvido:
                - Agora que acabou, podemos viver juntos, não? Esperei tanto tempo... Somos iguais, somos um.

1942, Finlândia.
                A primeira sensação que Alma sentiu, foi de vazio. Vazio de corpo, de alma, e de luz. Era estranho, mas não sentia medo. Seus olhos fixaram no teto, prenderam-se nas paredes que a cercavam e a apertavam. Ela levantou as mãos e percebeu, tateando o local como uma criança, que estava dentro de um caixão. Não havia oxigênio suficiente ali, ela notou, mas aquilo não parecia incomodá-la; tão pouco era necessário inspirar ou expirar o ar. Alma sorriu, confusa.
                Estava morta? Havia virado uma alma penada, daquelas que seus familiares costumavam contar estórias?
                Se ela tivesse sorte, talvez sim. Ela ainda conseguia ouvir os gritos desesperados dos últimos segundos de vida de sua mãe, e o baque surdo que seu corpo fez quando caiu no chão. Ainda podia sentir o cheiro do sangue e ouvir as risadas masculinas. Podia sentir a tudo do passado, como se as lembranças fossem tão reais quanto o presente. Ela bateu na tampa do caixão, agora não sabendo se tinha o direito de sair dali, ou não. Será que seus pais também estavam acordados?
                Pouco depois de suas mãos buscarem abrir o caixão, e bater naquela tampa dura por alguns segundos, ela entreabriu-se devagar, revelando um facho fraco e azulado de luz. Antes mesmo que toda a tampa fosse aberta, Alma pôde vislumbrar quem o abria. Um homem. Seu sorriso simples e conhecido.
                Ele.
                Ele não havia morrido, tanto tempo antes?
                Alma não conseguiria respirar, mesmo que pudesse, diante sua surpresa.
                Aqueles olhos negros, sempre tão alagadiços; sua pele parda; seus cabelos negros e lisos... Sim, não havia duvida. Era Joshua.
                Joshua estava ali.
                Com ela.
                Olhando-a com ternura.
                Era ele.
                - Como se sente? – sua voz. Profunda, o sotaque carregado ainda presente em seu tom meio rouco e sussurrante.
                Alma abriu os lábios, mas sua voz não saia. Ela levou os dedos aos lábios, e sorriu. Abraçou Joshua com toda força que podia. Ela sabia que ele era o motivo de sua família toda ser assassinada, mas não conseguia odiá-lo – não à ele. Ele era especial.

                Um dia, seu pai chegou em casa com um estranho em seu encalço, vestido com mais roupas do que era necessário, no meio de uma madrugada abafada. Alma levantou-se, curiosa, e ouviu os sussurros entre os pais e o estranho recém-chegado. A primeira coisa que ela notou: aquele homem era igual à muitos outros que ela vira na rua, e que pareciam sofrer um ódio por todos os da “raça” dela; assuntos, dizia seu pai, que ela não devia parar para pensar. “Coisas de adulto”, completava a mãe. O que papai fazia com aquele estranho ali?
                Ela adentrou na sala, timidamente, e sorriu. Todos, após cinco segundos de susto, sorriram também. O pai chamou-a para perto.
                - Leslie, esse é o Joshua. Ele vai morar conosco... Mas você não pode contar a ninguém, tudo bem?
                Leslie... Sim, era seu nome... virou o rosto devagar, fitando o pai, e sorriu enquanto assentia. Dirigiu-se ao estranho, Joshua e seus olhos que pareciam segurar o mundo em seu brilho alagado, e dirigiu-lhe um sorriso cativante.
                A partir daquele dia, se tornaram amigos. Amigos que só podiam existir enquanto sustentavam um segredo pecador: ela e sua família lhe resguardava a vida, e ele lhes dirigia uma gentileza e amor nunca visto em mais ninguém por ali. Leslie lhe dava amor, e ele lhe devolvia com afeição acentuada... Até que ele se foi.
                Para sempre.

1949, Nova Zelândia.
                - Joshua...
                Ele sorriu, seu sorriso do passado, e passou os dedos pardos pelo rosto da menina. Deteve-se por um momento, e fitou a menina com olhos profundos.
                - Quantos anos você teria hoje, se não houvesse se tornado vampira?
                A menina deu de ombros, e respondeu sem entender no que aquilo podia ser importante. -  15.
                Ele sorriu novamente.
                - Agora aceita ficar comigo, não aceita?
                Seus olhos cheios de promessa, prometiam o que nada no mundo já podia dá-la: ela era uma vampira, não merecia amor, não merecia paz. Apesar disso, ele também era. O que os unia ali, era a inexistência de vida. Deviam estar mortos; mas não estavam. Estavam juntos.
                E a vida se estendia no céu cinzento, prevendo um futuro estranho. Podiam ser felizes, num mundo que os classificava como lendas?

Fim.
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Certo, acho que esse foi a finalização de conto mais sem graça que já fiz... Acho não, tenho certeza. Como eu disse no inicio, eu tentaria fazer um bom final, mas não sou boa com finais - então, vocês têm que dar um desconto para mim, não? [;
Desculpem mesmo, se não gostaram.

Bem, agora posso me dedicar à Z35 e sua estória. *-*
Até a próxima.

quinta-feira, 24 de novembro de 2011

***


"Em cima dos telhados as antenas de TV tocam música urbana,
Nas ruas os mendigos com esparadrapos podres
cantam música urbana,
Motocicletas querendo atenção às três da manhã -
É só música urbana."

A cidade, pela manhã, está sempre bonita. O sol parece fazer milagres, ele é como uma maquiagem. Pela manhã, tudo é lindo. Pela manhã, tudo é falso.
                As sete da manhã, sombras sonolentas saem de casa. O barulho dos carros é como uma maquina hipnótica. Os olhos sempre vazios, coloridos como faróis de carro, remetem o interior confuso das pessoas. Me pergunto se as almas estão ali, se elas existem ou onde estão. Aqueles lábios vazios de palavras, que vomitam frases descontroladas, parecem não saber o que dizem. “Quanto menos palavras temos, mais falamos”. Isso é verdade. E as palavras tornam a se repetir, novamente, antes de eu fechar os olhos e viver no meio dos zumbis. No meio de você e companhia.
                Sou uma pessoa utópica, puramente sonhadora.
                Não quero ver quem está do meu lado, por isso todos me parecem sempre invisíveis e comuns. Eu digo: vocês são fúteis. Mas é mentira. As pessoas são complexas. Se vestem todas iguais e falam quase a mesma coisa, como se tudo fosse programado num sistema computadorizado, mas são profundas como livros manuscritos. As letras garranchosas são difíceis de ler, a caligrafia é infantil.
                Um mundo vazio de almas e pessoas, é uma mentira, um sonho particular meu. As pessoas estão ali, em todos os lugares, mas ignoro-as. Elas, por vezes, me entediam com um papo qualquer sobre futebol e roupas de grife; todos se entendem muito bem, a conversa parece ser mais fácil quando não temos o que dizer e dizemos mesmo assim. Talvez a futilidade que acuso, não pertença à elas, mas à mim. Afinal, até isso faz mais lógica.
                Eu que continuo fingindo cegueira, fingindo não ver à você, fingindo não ver a quem existe.
                Mas será que sou só eu?
                A mentira é real, está aqui. As paredes brancas se tingem com uma cor pecaminosa, enquanto o erro cresce. A sinceridade tornou-se uma brincadeira fictícia, e eu não sei brincar. Talvez eu deva aprender. Talvez eu deva brincar também.
                E as palavras se repetem.
                Isso é uma canção, e o refrão é como o rosto de quem eu vi aqui, e na esquina, e em todo lugar. A canção é profunda, mas não tenho capacidade de entende-la. Sei que ela existe. Posso ouvi-la, mesmo de longe. A música confusa continua tocando, mesmo em meus sonhos. O violão se escondendo por trás da bateria, e a bateria sobrepujando a força da guitarra. O som me lembra violência, rebeldia. Espero que ela acabe de tocar, não gosto do que ela faz. Os sangues escoam pelas vielas, enquanto pessoas perdem vida, e a bateria toca com desespero. A musica que ouço no rosto de cada pessoa, de cada livro vivo, é a musica da dor, da vontade de fazer doer.  Não quero mais ouvi-la. Espero que o ultimo acorde da musica soe antes que todos os homens se destruam com sua vontade de construir algo melhor que o que já possuem.


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Desculpem-me o tempo sem postar, é pura e simples falta de inspiração. Sei que o texto que escrevi não faz muito sentido, e talvez precise de um pouco de interpretação pessoal... Enfim. Sinto que acbei me perdendo nas linhas, e que o inicio do texto nada tem em comum com o final; eu diria que as linhas que se seguiram foram apenas um pensamento confuso sendo transcrito sem regras para impedi-lo. Gosto mais quando tudo flui assim, rebelde e sem limites - ao menos os textos parecem mais sinceros, quando isso ocorre.

Vou ver se consigo escrever (ao menos) mais um capitulo de Z35 ou de Alma. No estado de total fatal de inspiração em que estou, qualquer coisa serve (rs)!

Albert-nii-chan, terminei de ver  Secret Garde! Tão legal! Eles tiverem três filhos... algo, tipo, muito esquisito.

Ja nee.

domingo, 20 de novembro de 2011

***


"Sou meu próprio líder: ando em círculos
Me equilibro entre dias e noites
Minha vida toda espera algo de mim
Meio-sorriso, meia-lua, toda tarde"
- Legião Urbana


A vida é incerta.
                Estou viva, e isso significa que tenho vida, mas não tenho certeza se isso é bom. Ou ruim. Como saber? Eu só estou aqui, como você, como todos. E, talvez por isso, talvez pelo resto, tento achar sentido nessa existência estranhamente inútil, e me vejo desesperada por respostas. Logo eu, que havia prometido não enganar à ninguém, inclusive não me enganar, me vi adentrando num poço de mentiras novamente.
                Até onde seguirei com esse costume de, simplesmente, não cumprir as promessas que faço à mim mesma? E, pior, quando pararei de dormir todas as noites repetindo à mim mesma: “é fácil, você consegue”? Se quer saber, não é fácil. E quase não estou conseguindo mais.
                Cansei de tentar me classificar em gênero, número e grau; de tentar me comparar ao restante do mundo, à todas as pessoas que considero estranhas e idiotas, felizes mesmo em meio à tristeza. Se quer saber, não faço idéia se meu gosto sexual é homem ou mulher, não sei se sou lésbica ou heterosexual. Não sei minha altura exata, e nem procuro saber mais meu peso. Ainda por cima, não sei se sou boa em algo, se faço as coisas corretamente. Não sei de nada, nem sobre mim, nem sobre o mundo. E isso não me incomoda... Incomoda à você. Infelizmente, eu sou eu. E não preciso de adjetivos para isso.
                Sempre tentei sentir coisas parecidas com quem me rodeava. E esse sempre, constato eu, não é de muito tempo: quem sabe dois, quatro anos atrás. A eternidade é limitada, afinal de contas.  Porque você se importa se eu prefiro passar minha vida toda ao lado de uma mulher ou de um homem, amando-o (ou amando-a, que seja), não eu – e isso já limita o que era infinito, isso limita a eternidade. Você que se importa se eu tenho altura suficiente para ser classificada como uma criatura atraente, e quer saber se meu peso condiz com o de outras modelos – isso é o que você procura, não eu. Você que se importa se sei cozinhar, se serei uma boa mãe ou se posso ser uma boa profissional; e (dane-se), não eu!
                Vá para o inferno quem insiste em me enquadrar, me classificar, com esses aspectos tolos! Não me importo, não mais, se vou estar sozinha a vida toda, se ninguém irá me querer. Já não me importo se meu cabelo excessivamente curto incomoda alguém, e ignoro os dizeres constantes de minha mãe: “você não parece uma garota”. Aprendi a não dar importância à minha visível falta de talento em quase tudo – por quê não dizer tudo, logo? E, se quer saber, não me importo.
                Já vi pessoas crescerem. Um dia, elas simplesmente tem que ir. E entendi que não as seguirei. Não mudarei pela sociedade, ou pelo que ela acha de mim. Até onde tenho de seguir idéias pré-formulados, para ser feliz?Por quê eu mesma não posso fazer meu conceito sobre o que é felicidade? Pois eu digo: ser feliz não é casar e ter filhos, ser feliz é ter uma estante repleta de livros num cômodo que cheira à palavras antigas e tinta velha; ser feliz não é ser perfeita, mas ter um corpo saudável o suficiente para pular, correr  e se esconder em qualquer lugar (uma coisa boa para pessoas magras), quando brincar com meus primos menores; ser feliz não é ter qualidades, mas errar sempre que necessário e aprender a conviver com sua própria falta de talento.  Então, se não se importam, me deixem sozinha. A solidão, infelizmente, se torna uma companhia agradável para quem sabe apreciá-la. A solidão virou minha parceira de cama, de mesa e – por quê não dizer? – de vida. Eu e ela seremos felizes, sem filhos, sem casas enormes e sucesso fundado em um talento que não vejo. Acredito no que sou agora, e sonho que continue assim até o fim.
                Até que a morte nos separe.

sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Alma #4


1949, Nova Zelândia. 

        Alma recostou-se contra a parede, negando à si mesma o cansaço que tomava conta de seu corpo. Há quantos dias não se alimentava? Três - talvez quatro?Ela já não sabia. Demorara mais do que imaginara, chegar àquele local totalmente ridículo. Casas bonitinhas, jardins bem-cuidados... Sim, era tudo muito ridículo.
        Aquelas pessoas, tão tranquilas, não sabiam de quem eram vizinhos.
        Com certeza faziam festas, e convidavam à todos, e bebiam até o dia amanhecer. Comemoravam o natal juntos, davam-se bom-dia todos os dias e sorriam amigavelmente toda vez que se encontravam. Porém, nas entranhas daquela cidade vil, vivia um homem. Seu sorriso torto, por vezes, pegava à todos desprevenidos; e seus olhos negros eram tão profundos e alagadiços, quanto um rio cheio de corpos apodrecidos. Seus cabelos, tingidos, variavam de um castanho para  um loiro, e ele não tinha bigode ou barba. Era um homem nem magro nem gordo, nem rico nem pobre. Trabalhava numa empresa que fabrica papel, há 30 minutos de carro dali.
        Ninguém sequer imaginava quem era ele, o assassino que aquela carapaça bonita escondia.
        Mas - pensou Alma - ele nunca a enganaria. Ela era boa no que fazia, boa em matar, tal qual ele. Agora, ele podia agir como uma pessoa boa; ele podia fingir-se cidadão comum. Mas o passado não se apaga, e as pessoas mortas por suas mãos, as gotas de sangue derramadas por seus dedos nodosos, não podiam voltar. Essa era a prova de seu crime, o sabor invariável das lembranças.
        Ele também não voltaria, e Alma se certificaria que ele morresse junto com seu bando de pássaros carnívoros.


1941, Berlim. 
        O cheiro metálico era insuportável. Alma sentia-se mal. Ela deixou-se ir ao chão, o medo e a incerteza fazendo-a parecer um rato amedrontado. Seus ouvidos eram consumidos pelos choros de sua mãe, que não se movia mas gemia alto. Sem se dar conta, Alma levou as pequeninas mãos até seus ouvidos, tentando impedir que aqueles sons queimantes atravessassem suas orelhas e parassem em seu cérebro. Logo ela descobriu que era inútil.
        Sua irmã continuava imóvel, tal qual minutos antes. Papai, ela pensou, também brinca muito bem de estátua. Os olhos dele estavam estáticos, como tudo ali, e fixos apavoradamente em Alma. A garota estremeceu, mas não se aproximou do corpo do papai, do homem que lhe dava beijos de boa-noite e a pegava nos braços toda vez que a via se aproximar. Ele sequer lhe deu aquela piscadinha caracteristica, do tipo que lhe fazia promessas infinitas sobre aquele mundo incerto. Sem isso, sem tudo, a garota sentia-se vazia. Tão vazia quanto aqueles olhos sem brilho, parados.
        - Ele está aqui! - um homem murmurou, sua voz muito próxima do nervosismo e entusiasmo. Ao som de sua voz, os outros ageitaram os ombros, aprumaram as armas em punhos e puseram nos olhos um brilho vazio e comedido, como se fossem máquinas, brinquedos de corda prestes a falar a frase que lhe foi empregada a falar.
        O homem, arrumado com seu casaco verde e olhos cheios de ordens, adentrou no cômodo. Suas botas, acompanhando seus passos seguros e lentos, faziam o chão ranger, como se até a madeira estivesse com medo. Alma emcarou o estranho, fixando seus olhos em seu rosto sério. "Bigodinho engraçado" - ela pensou, sorrindo levemente. O choro da mãe cessou, para ser substituido por gemidos de medo.
        - O que estão fazendo? Brincando? Mandei matar à todos, não? Matem-nas, senão, vocês serão os próximos a adentrar o necróterio! - sua voz era suave, mas vivaz. O cabelo dele estava firmemente penteado, o gel brilhando como fogos de artifício - pensou Alma.
        - Perdoe-nos, Führer. - Um homem de cabelos loiros, quase brancos de tão amarelos, disse. Ele apontou para dois homens, e mandou que dessem um passo a frente. Dois pares de olhos se fixaram em Alma e sua mãe chorosa, apontando as armas como troféus poderosos, cartas muito boas num jogo de cartas.
        Um. Dois. Três.
        A morte não dói tanto assim.

1949, Nova Zelândia.
        A lua decorava o céu com ousadia, e Alma já não sentia aquele calor intenso do sol. Bom. Ela deixou que seus pés, movidos pelo instinto animal, a levassem até aquela fábrica inútil, barulhenta e nojenta. O prédio cheirava a madeira e sofrimento, as paredes eram decoradas com pinturas de mofo e pinceladas de teias de aranhas. Era tudo tão grande, tão imenso; aquilo fazia da pequena Alma, uma criança acanhada. Ela sorriu, seu sorriso quase humano.
        O homeme estava ali, arrumando-se para sair de seu turno. A fábrica estava quase toda vazia, ocupada apenas com poeira e ruídos estranhos. Alma estava concentrada no pescoço suado e nodoso daquele homem, e malmente percebeu que seu corpo entrava no ápice do desejo, impelindo-a para cima - para um salto certeiro no grande homem, no Grande Führer.
        - Pensou que tingir o cabelo e tirar aquele bigodinho ridiculo o faria ser perdoado pelos seus crimes, Hitler? - o homem assustou-se com a voz quase infantil, apesar de arrastava e rouca pelo desejo, que saira de suas costas, e seu corpo tremia quando o de Alma estava montado em cima de seus ombros. As mãos pequenas da menina agarravam seu cabelo e pescoço, e Alma, num ângulo estranho, deixou que sua língua passeasse pelo pescoço do homem aterrorizado.
        - D-d-do que está falando? - ele teve forças para dizer, com seu sotaque carregado, antes de sentir as presas afiadas penetrar sua pele e tirar-lhe, lentamente, a vida.
        Como nunca, Alma deixou-se sentir prazer por ver a vida se esvaindo daquele corpo ridiculamente fraco. O cheiro do cabelo lavado de suor, a deixou mais desejosa por aquele liquido que corria solto nas veias assassinas do homem.
        "Você é como todos" - ela pensou. "Você morre como todos. Sim, você é humano. É apenas um homem. Como se sente, ao descobrir que não fui enganada pelo seu truque barato? Fingir-se de morto?! Eu te perseguiria mesmo que estivesse debaixo do chão, que é seu lugar, junto com os outros vermes. Junto com seu povo."
        O corpo caiu, e Alma ainda estava ali, seu corpo em cima do dele, seus dentes sugando à tudo. O ambiente cheirava a sangue, o mesmo cheiro do passado. Porque tudo é igual, e a morte, no fim, é a mesma para todos. Mesmo quando já não havia o que beber, Alma mantevesse ali, estática, agarrada ao corpo. Não se importava com o que viria a seguir. Ela não precisava respirar e seu coração malmente batia, seus pulmões não suplicavam por oxigênio; ela não estava viva. Estava morta. Mas se movia. Por isso nada mais importava, sua família estava vingada. Como prova disso, um corpo pálido, retesado, deitava-se no chão como se ali fosse sua própria morada, como se estivesse dormindo confortavelmente em sua cama.
        Alma estava tão apagada em suas lembranças, que malmente percebeu quando uma sombra se aproximou, encostando-se na parede ao lado. Seu cheiro, o calor que seu corpo emanava; era tudo como antes.
        Era ele.

Continua
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Peço desculpas pelo tempo sem postar. Foi a internet aqui de casa que resolveu ficar de mal comigo (pela centésima vez... Isso é que chamo de relacionamento complicado). Sei, sei, eu disse que ia postar um capítulo de Z35, não foi? Mas não consegui, simplesmente, esquecer minha querida Alma durante esses dias... Tive que escrever sobre ela, e para ela - porque tenho a impressão de que a amo, não como uma filha mas como uma melhor amiga. Eu e ela, creio, somos um pouco parecidas. (Falei demais! Certo, vou parar).

Amanhã, ou depois, posto mais alguma coisa; então, até lá. ^^
Albert-nii-chan, terminei de assistir Playfull Kiss (*-*). Ah, sim, sim, e vou ler Xógum - deixa eu terminar de ler esse O Jogo do Anjo. Sinceramente, estou morrendo de medo dele (é livro de suspense... e, realmente, estou com medo! Nii-chan, me ajuda, vai?  D;).

Ja nee. [;

segunda-feira, 14 de novembro de 2011

Alma #3


1949, num canto qualquer da Etiópia.
Alma olhou ao redor. Era aqui? Um riso cinico escapou de seus lábios vermelhos,  tão vermelhos quanto os lenços que enfeitavam a cabeça daquelas mulheres magras (nada mais que pele nos ossos delgados). Aquilo, aquelas casas, tudo - era a personificação da pobreza. O que não podia ser dito com simples palavras. Ainda bem, pensou Alma; ela era péssima juntando letras. Seu jogo era outro, não os de mentiras ou ladainhas. Seu jogo era com as mãos, com as presas. Seu jogo resultava num fim literário: morte.
O frio comia a pele de quem quer que fosse, e Alma quase podia senti-lo na sua própria. As pequenas casas, insignificantes de um modo especial, se amontoavam umas em cima da outra, como se buscassem proteção do frio ou de qualquer outra coisa. Alma parou um momento, olhando para aquela paisagem morta, e decidiu seguir em frente. Eram só mais dois. Só mais dois, e tudo estaria acabado.
Sim, dois era um número de sorte, não? Dois, e Alma teria seu merecido descanso.
Como se para provar isso, Alma contou seus passos até a porta da casa onde o próximo corpo seria produzido por suas próprias mãos. Elas já tremiam de ansiedade, cheia de sentimentos que, por hora, pareciam tão humanos. Mas Alma não era humana. Era uma criança. Uma criança sedenta por sangue, por vingança.
Seus pés tocaram a soleira da porta. Como num filme, muito lentamente, Alma adentrou na casa, sem mais esforços. Tudo era vazio, silêncio; o escuro banhando cada vão de parede, cada grão de areia. O lugar fedia, e Alma já não sabia se aquilo era o cheiro da casa, ou se era sua imaginação já produzindo o fedor de corpo apodrecendo. Era difícil saber. Mas não importava. Alma deu mais uma dupla de passos, que a fizeram parar quase no meio da minuscula cabana.
O homem dormia ali, encolhido, quase morto. Seus ossos aparecendo com ousadia por sobre a pele, agora, num moreno estranho. Era quase irreconhecível, se comparado com aquele rico Eichmann, sempre tão seguro de si. Agora, ele vestia-se com trapos sujos, e, certamente, lutava para conseguir se alimentar.
Ele já estava sendo castigado pela vida, mas isso não evitava que Alma lhe castigasse com a morte.
Antes de matá-lo, sua memória lhe pregou uma peça, e os ultimos momentos de vida do seu pai, lhe assaltaram a mente concentrada.


1941, Berlim.
O corpo fresco da irmã estava deitado num ângulo estranho, espalhando um liquido vermelho-escuro no piso. Alma abriu a boca: “Mamãe, a senhora odeia que sujem o piso.”. Apesar disso, nenhum som saiu de sua boca. Por quê suas mãos tremiam? Por quê sua irmã não se mexia?
O homem loiro, ainda com sua arma na mão, passou os dedos pelo cabelo, manchando-os levemente com sangue. O quarto fedia à suor, mas um outro cheiro deixava Alma atordoada, levemente enjoada. Ela olhou para sua irmã de novo. “Isso é uma brincadeira? Ela está brincando de estátua?”.
Os olhos de alguém se dirigiu à Alma. Era um outro homem, apesar de terem os mesmos cabelos claros e olhos gelados.
- Oh, mas que coisinha linda temos aqui? A mais nova? - o homem sorriu para o pai de Alma, um sorriso assustador. - Não nos disse que tinha mais filhas, senhor.
- D-d-deixe-a em paz! O seu negócio é comigo! Deixe-as em paz! - seu grito ecoou no quarto com uma força que parecia não ser dele. Alma nunca vira seu pai aumentar o tom de voz. Ela também nunca vira sua irmã brincar, e não sabia que ela era tão boa em manter-se parada. Quanto tempo se passara, e ela ainda permanecia imóvel, com o rosto parado numa única careta morta?
- Ah... Qual seu nome, minha linda? - o homem deu três passos, se aproximando de Alma. Ela não se moveu. Seus olhos se fixaram nos dos homens.
- Mamãe me disse para não falar com estranhos.
- Oh, ela disse? - agora ele estava encurvado, os olhos na altura dos de Alma. Eles eram verdes, Alma notou, tão verde quanto a grama do parque, no verão.
A mão do homem encostou nos lábios da garota, delineando as curvaturas suaves e vermelhas do mesmo. Ele sorriu, um brilho estranho pintando seus olhos cor-de-grama. Aos poucos, as mãos do homem desceram pelo rosto da menina, passaram pelo pescoço da garota até que ela lhe dirigiu uma resposta violenta. Com um movimento rápido, ela chutou-o no lugar certo para fazê-lose curvar de dor, berrando maldições e transformando seu rosto, antescalmo e frio, numa máscara de ódio, vermelho de ira.
Ela correu para o pai, pisando no torpe liquido vermelho que já parecia um tapete no piso sempre muito bem limpo do quarto. Quando olhou para trás, Alma viu uma arma na mão do homem. Ela parou, levemente intrigada, agora sentindo-se assustada e acuada, como uma presa na armadilha do caçador. O homem não esperou muito para fazer daquele estranho objeto em suas mãos, algo útil.
Ele atirou.
Alma fechou os olhos, pressentindo qualquer que fosse a coisa ruim que lhe aconteceria. Será que doía? Passou-se trinta segundos antes de Alma ter coragem para abrir os olhos... O que viu, não foi a si mesma estirada no chão, vazando um liquido vermelho (tal como sua irmã), mas à seu pai.
Ele sangrava.
Ele também não se movia.
Que brincadeira era aquela, na qual todos jogavam tão bem?

1949, Etiópia.
- Espero que você queime no inferno, tal qual todos os de sua raça perfeita, sr. Eichmann. - Alma murmurou, segundos antes de deixar-se levar pelo instinto, e morder aquele pescoço fino e frágil, tal qual de uma menina doente. Os olhos do homem se abriram, em pavor, e ela viu, no brilho daqueles olhos verdes, o mesmo homem de tantos anos atrás.
Afinal, a idade e o sofrimento podem mudar à tudo, menos àquele brilho maléfico.
Mas a vingança, pensou ela, não cheirava mais à perfume alemão. Aquele homem já estava morto, antes dela matá-lo.


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Mais um (estranho) capitulo de Alma. Tudo bem, tudo bem; você acha que está ficando muito estranho, muito violento, talvez?Eu também. Não esperava que saísse algo tão bruto, mas, é. Espero que a violência livre não acabe assustando ninguém (rs).

Falta pouco, agora, para o conto acabar. Então, nem se preocupem, não terei tempo para acabar tornando essa estória mais violenta do que ela já está (xD). Hm, talvez amanhã, ou depois de amanhã, eu lance o outro capitulo do conto de Z35 - tenho até preguiça de colocar aquele titulo aqui (pra quê que inventei de colocar o titulo em hebraico, Deus do céu? ^^'). Albert-nii-chan, sério que gostou do conto anterior? *-*'

Ja nee.


domingo, 13 de novembro de 2011

Fantasia do Real


Sentou-se, abruptamente, no meio-fio sujo daquela cidade imunda. Tudo ali fedia à civilização, desde os perfumes franceses caros, finos demais, até a fumaça dos automóveis velozes, naquele asfalto tão negro quanto a alma das pessoas. Amanda tentou respirar fundo, retirar de si o desespero, mas, a cada segundo que passava, ela sentia-se mais morta que no anterior. Sim, ela estava morrendo, só podia. Porque a morte não é só física... também pode ser emocional, não?
                Sentia-se sozinha, e estava diante de uma multidão. Os saltos altos das mulheres, batiam no chão com um som obsceno, e os homens de terno atendiam o telefone à todo momento. Uma moto passava veloz, atropelando o ar e qualquer coisa que se interpusesse em seu caminho. Alguém chutou a bolsa de Amanda para longe, ignorando a presença daquela jovem bonita, com seu vestido de festa na ultima moda. Porque nem o bonito vale algo, aos olhos humanos. Nem o bonito, nem o rico, nem nada. Nada mais importa. Muito menos Amanda.
                Com mais uma onde de choque, ela deixou seu queixo encostar no joelho, enquanto soluçava, sem derramar uma lagrima. Ela era adulta, uma mulher experiente. E mulheres ricas, as mulheres de verdade (com roupas de marca e óculos exagerados), não choram. Amanda não choraria, prometeu. Seus soluços se assemelhavam à uma atuação teatral. No fim, talvez fosse só aquilo, percebeu. Talvez ela tivesse se tornado tão falsa, que até suas emoções começaram a fazer parte de uma máscara pintada num rosto bonito.
                Mas por quê doía tanto?
                Seu marido... Sim a culpa era dele! Aquela canalha, aquele... Aquele... Amanda não podia pensar em qualquer outra palavra, qualquer outro adjetivo, fosse bom ou ruim. Afinal, o que ela sabia da pessoa com que casara há um ano? Ele era um grande empreendedor, dotado de uma beleza pecaminosa e um sorriso levemente frio e sensual. Seus olhos eram de um negro profundo, um daqueles que você pensa em navegar durante horas e horas. Será que fora aquilo que convencera Amanda a casar-se com o homem, ou fora seu dinheiro...?Mais provável que fosse esse ultimo caso. Não havia espaço para romantismo barato. Não havia espaço para sonhos, para o amor. Naquele planeta, não havia lugar à mais nada que não tivesse valor comercial.
                Mesmo assim, porque doía tanto? Que dor era aquela? Era orgulho? Era ódio?
                Há menos de cinco minutos, ela sabia – tinha certeza -, vira seu marido... se beijando com aquela mulher. E do lado da grande mansão em que ocorria a festa de aniversário de casamento.  Como ele pudera? Aquilo era humilhante, disse, por fim! Não o amava. Sim, não nutria nada por ele – e ele não merecia nada mais que seu ódio extremo, ou qualquer outro nulo sentimento, fosse ele falto ou não. Ele não merecia nada. Nem mesmo seus soluços pseudo-tristes.
                Sentiu uma mão em seu ombro. Uma mão quente, conhecida. Naquele estado, pensou ela, qualquer mão, de qualquer forma, serviria. Ela sentia-se sozinha. Sentia-se descartada. E quem ali se importava? Ela era só mais uma riquinha, mais uma mulher de sorrisos falsos. Tanto fazia, tanto para o mundo, tanto para sua família, quanto para seu... marido.
                Amanda, lentamente, levantou os olhos. Um homem – seu antigo amigo – estava ali, bem a sua frente, a testa franzida numa preocupação terna. Ele tocou em sua bochecha pálida, cheia de uma maquiagem desnecessária, e apertou-as delicadamente, como fazia há anos atrás. Como quando ela era uma criança, e, ele, seu ombro de consolo. Aquilo era um milagre em meio ao inferno, uma flor que desabrochava no meio do inabitável. 
                Devagar, ela deixou-se ser levanta por aqueles braços carinhosos e amigáveis. Porque, para ele, ela era importante. Não importava o mundo, não importava o marido traira, não importava sua família e toda aquele conjunto de relacionamentos vazios e ignoráveis. Porque ninguém ali, naquele meio de cobras, fossem simples empregados ou grandes empreendedores, se importavam com qualquer que fosse a pessoa ao seu lado. Porque, ali, naquele mundo nulo, os sentimentos eram invisíveis, mesmo diante de seus olhos.
                Os sentimentos podiam ser ignorados, as pessoas também. Era assim. Sempre fora. As pessoas passam pelas outras sem saber que alguém ali pode estar morta sentimentalmente... Quantos defuntos estão ao nosso redor, e não percebemos? A aparência é tão importante, que só consideramos por morto alguém que perdeu os batimentos cardíacos?
                Amanda caiu nos braços do amigo, enquanto ele lhe afagava as costas e alisava seus cabelos bem tratados. Porque ele podia vê-la... Ela podia ser vista por alguém, seus sentimentos não eram totalmente invisíveis, mesmo sem ela abrir os lábios para dizer nem uma palavra.
                - Shh... Não chore. – ele murmurou, baixinho. – Eu sempre lhe disse que ele não a merece. Ele não a ama. – ele fez silêncio por dois segundos, antes de, com uma voz rouca, dizer: - Deixe-me amá-la, Mandy. Por favor, não fuja de mim. Deixe-me ser a pessoa que vai cuidar de você.
                Mas, mesmo que no mundo só existam pessoas frias... Deve haver alguém, alguém que lhe note. Deve haver alguém capaz de me amar, capaz de amar Amanda, capaz de amar à você. Sim, por que não acreditar? Por quê não lutar por manter ao menos essa esperança? Por que tenho que crer tão fielmente que  felicidade não existe? 
                Amanda, pela primeira vez, deixou suas lagrimas fluírem. Abraçou seu amigo, seu amor, o mais forte possível, prendeu-o à si com força, para que ele não fugisse... Ela não deixaria a felicidade escapar uma vez mais, não cometeria a mesma insanidade por uma segunda vez. Porque, qualquer que seja o sentimento, só se tem uma oportunidade para senti-lo... Até que ele se extinga - aproveite. Até que ele lhe seja bom - cultive-o. É só isso que lhe resta. É só isso que resta à Mandy.

sábado, 12 de novembro de 2011

Mais do mesmo


"Desses vinte anos nenhum foi feito pra mim

E agora você quer que eu fique assim igual a você
É mesmo, como vou crescer se nada cresce por aqui?" 
                                                                                              - Legião Urbana


As palavras se espalhavam sobre o chão de madeira, crepitando com o calor do fogo. Era uma madrugada comum, num canto mais comum ainda, numa cidade totalmente normal. A casa não era nem rica nem pobre, nem grande nem pequena. Seus moradores eram simpáticos, mas não muito bons; eram gentis, mas não faziam o perfil de bons samaritanos.

                Sim, aquele era um local comum, igual à sua casa e à casa de seu vizinho.

                E, agora, estava em chamas.

                Hugo olhou ao redor, sem força de se erguer ou fugir. Como tudo terminara daquele jeito?Aquilo era o que chamavam de justiça? Seus belos livros queimavam, as palavras se desfazendo em pó, bem diante de seus olhos descrentes. O lugar fedia, e não era só pelo fogo. Ali, um cheiro nauseante de maldade humana parecia impregnar as paredes e se agarrar à elas como se fossem um último refúgio.

                E tudo ainda queimava.

                Com o fundo musical de páginas se rendendo ao fogo, Hugo vislumbrou um lado seu que, ainda anos atrás, já parecia filosofo demais para sobreviver nesse mundo. “Afinal, de que a vida lhe serve, se vem um desgraçado e lhe tira de repente?” E ele não sabia se xingava Deus, ou se suas palavras torpes se dirigiam à um homem, um ser alienável e totalmente frustrado, que havia invadido sua casa e começado o incêndio. Ele não sabia se rogava pela clemência dos céus, ou se pedia ao Diabo para tirá-lo logo daquele lugar imundo, que agora só cheirava a suor e palavras queimadas com algum combustível barato, com certeza misturado à água para que rendesse mais. Escolheu pela ultima opção, afinal, era a mais próxima a si mesmo – e a que lhe daria, com toda certeza, ouvidos. Se morresse, pelo menos teria o credito de ter tido uma de suas orações cumpridas. O que seria irônico.

                Com a cabeça latejando, ele olhou para trás, para sua vida, para antes de parar naquela casa, ou conhecer o nome daquela cidade vil, onde cada pessoa parecia incapaz de encontrar felicidade. Talvez ali rondasse uma maldição, pensou Hugo. Vendo sua situação, com um ultimo resquício de dignidade e sobriedade, aquilo parecia fazer ainda mais sentido. Ele suspirou. A fumaça adentrando em seus pulmões fizeram-no viajar à sua própria vida, ao que ela significava.

                Tivera uma infância comum, com pais nem muito bons nem muito maus. Seu desempenho escolar foi igualmente parecido com o de outras crianças, e sua adolescência foi banhada de fatos que aconteciam com todo mundo; ele não fora nem rebelde, nem o melhor filho do mundo. Tivera namoradas comuns, nem muito estranhas nem muito bonitas – apenas meninas normais, iguais às namoradas de seus amigos. Se formou com um boletim miserável (nada mais do que o comum), e começou a trabalhar como escritor num jornal comum, não muito famoso mas que também conseguia garantir leitores o suficiente para sua sobrevivência. Hugo escrevera um livro, não um Best-seller, mas um livro comum para pessoas comuns. Ele tivera uma casa comum – essa casa que agora pega fogo -, e construíra uma família nada mais do que comum. Até seu sorriso era comum. Hugo era daqueles caras que, se você olhasse na rua, não lembraria mais de suas feições 5 segundos depois de vê-lo longe. E até isso era comum.

                Ele procurara fama, e sentia-se orgulhoso de si mesmo. Tinha uma casa e uma família, não era um cara que aparecia constantemente na televisão ou nas capas de revista, mas publicara um livro com um sucesso comum. Ele conseguia se manter com uma aparência comum, e tinha uma lista de amigos comuns, que lhe adentravam a casa todo final de semana, numa festa comum. Hugo não podia pedir mais, pois era um cara comum. A sociedade lhe ensinara a viver, e ele aprendera corretamente. Ser comum era a regra. Ele seguira aquilo com afinco. O que causara a revolta de um cara comum que, enraivecido, decidira botar fogo na casa de Hugo e matar à ele e a sua (comum) família? Hugo agira como um homem comum, e lhe tirara o emprego, substituindo a quantidade comum de alimentos, que o homem conseguia garantir todos os dias, por uma fome insaciável de tudo que, para os humanos, era comum. Fome, vingança, sofrimento, falta de esperança. São sentimentos comuns.

                Como um homem comum, e jogando o jogo que a vida lhe ensinara, Hugo destruíra a vida de um outro homem, que não lhe importava se vivia ou morria - também era um cara comum. A dança lhe pedia  passos ousados, embora comuns, e Hugo os dera com um prazer comum. Ascender no emprego, na vida, significava pisar em alguém. É assim que o capitalismo funciona. E foi assim que Hugo morreu.

                Virei as costas antes de ver sua morte. Estou entediada com a vida humana, com o comum. Hugo morreu, como todos os outros. Ele não fizera nada que você, talvez no futuro, também não faça. Porque você também segue a regra do comum. E, no final, nossa vida já está toda num roteiro – num roteiro comum, com um diretor nem muito famoso nem muito miserável. Porque somos obrigados a viver uma vida comum, e morrermos como tal. Somos comuns, e não lutamos contra nosso destino, porque até ele mesmo é comum. 

Nascemos e morremos, crescemos e procriamos – porque somos pessoas comuns. O que está de errado, não nos importa... porque nossa vida é comum, e o comum não precisa de mudanças.

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Sei, o conto (mini-conto, se quer saber) se pareceu com algum que já escrevi? É, é um no mesmo perfil de... Qual era o nome mesmo?Acho que Era uma Vez, no blog A menina que Amava livros. Nem lembro, faz muito tempo. Mas, enfim, é seguindo o mesmo perfil, só que sem metáforas e muito mais sem graça (rs). Sei que ficou grande, mas desculpem, viu? É mais forte que eu, escrever (e falar) demais.

Espero que ao menos Albert-nii-chan goste (um fato: na maioria das vezes, ele é o único capaz de gostar do que escrevo. Vai entender. Eu não entendo). Brena-nee-chan, logo postarei mais um capitulo do conto Alma, e vou ver se faço uma agenda semanal pra esse blog, pra ver se fica menos desorganizado (pois é). 

Ja nee [;

segunda-feira, 7 de novembro de 2011

Alma


Leia a primeira parte desse conto: Parte 1

1949 - Rio de Janeiro, Brasil.

Alma olhou pela janela do quarto, vendo a extensão da cidade, em sua beleza noturna. As luzes dos candelabros e postes antigos misturando-se com a paisagem - fazendo parte da paisagem -, numa dança bela e incerta. Ela tinha que reconhecer, aqueles trastes sabiam escolher bem seus esconderijos. Aquele devia ser uma das mais belas e caras mansões da cidade.
                Em pensar que conseguiram toda aquela riqueza roubando, matando, extorquindo, invadindo... Sendo injustos... Ela sentia uma repulsa que transformava toda aquela beleza à sua frente, em uma paisagem mórbida e inabitável.
                O mundo era injusto. E as injustiças, depois de anos, persistia como um prêmio.
                Parou de pensar, por um momento. Ela precisava se apressar. Precisava matar. Agora só lhe faltava mais uma lista de 3 pessoas. Somente mais três assassinos, e pronto. Ela estaria livre - livre para morrer em paz.
                Ela não queria viver. Não mesmo. O que ela queria, era paz de espírito. Ela queria vingança. Ninguém esperava que a garota sobrevivesse, que se tornasse aquele monstro que é agora. Como explicar sua transformação? O ódio a transmutou num ser sedento de sangue? Ou será que foi o desespero? Quem sabe ambos. Quem sabe nenhum. Podia não ter explicação. As coisas só aconteciam, assim como sua família apenas foi mais uma vitima da máquina de guerra.
                Alma virou-se de costas para a janela, naquele morro alto e desolado, e foi em direção à escada. Sabia onde sua próxima vitima estava, e mediu seus passos como se fossem filhos pródigos. Subiu, um a um, os degraus, sentindo cada passo se tornar uma pontada de esperança – esperança de acabar logo com aquilo. Seus pés mal pisavam o chão, de tão pequenos e suaves, o que contrastava – e ela bem o sabia – com a selvageria de seus olhos não mais inocentes.
                Junto com sua família assassinada, tudo fora junto. Inclusive sua bondade e bom-senso.
                Chegou ao fim da escada. E lá estava sua vitima, num quarto, sentada numa cadeira alta e rica. Seus olhos estavam fechados enquanto uma vitrola vacilava com uma música qualquer. Alma sorriu. Que bela morte Himmler, um dos homens de confiança do Führer, teria – até mesmo com um fundo musical trágico! Como se lendo seus pensamentos, Himmler virou-se para ela, de sua cadeira rica. Ele franziu a testa, intrigado, antes de reconhecer Alma, olhando-a assustado.
                Ela podia ler seus pensamentos: “Ela está viva? É um fantasma? Veio me buscar?”. Alma sorriu. Sua mente vagou alguns quilômetros do passado... Para quando viu sua felicidade vacilar, e, lentamente, se despedaçar no chão de madeira da sua sala-de-estar. Voltemos  alguns anos, por favor;  entremos dentro das memórias reais e nefastas da pequena Alma.

1941 – Num bairro qualquer de Berlim. Todos ainda viviam razoavelmente bem, a guerra ainda era um assunto ignorável, para aqueles que a queriam ignorar.

A pequena garota ouviu um ruído, um grito agudo, no quarto de seus pais. Ficara com medo, pensara em tudo: monstros! Monstros invadiam sua casa, talvez. Por isso correu, desesperada, na direção contrária aos gritos. Estava com medo. Era só uma criança.
                Sua irmã mais velha saiu da cama, também concentrando-se no grito. Não imitou sua irmã caçula, e correu para o quarto de onde o desespero parecia imergir. Deu um grito também. “Alma, fuja!”. Sua voz estava desesperada, vazia, cheia, morrendo.
                Alma não conseguiu. Não podia mais correr, seu medo agora a fazendo voltar para onde sua irmã tinha corrido. Os gritos continuavam, e pediam, suplicavam por piedade. Alma não entendeu o que acontecia. Chegou à porta do quarto dos pais, de onde vinha toda a confusão. Então viu. Viu os homens. Estavam armados. E seus pais, no chão; o pai, um homem loiro, abraçava a mulher, com os olhos negros de terror; e a mãe, uma mulher de rosto fino e belo, chorava. Sua irmã estava nos braços de um dos 6 homens – talvez fossem menos, talvez mais (Alma não havia aprendido a contar muito bem, e errava as contas quando nervosa). O homem, num abraço apertado, espremia seu corpo contra a irmã, agora, já com o vestido rasgado.
                Ninguém parecia notar a pequena Alma. O homem jogou a irmã no chão, deitando-se em cima dela. Percorreu o corpo da garota, que não passava de seus 17 anos, com a mão, e ela gritava por clemência. Alma não entendeu o que ele fez a seguir, mas viu a irmã gemer de dor, enquanto ele fazia coisas erradas com ela. Alma não queria ver. Da irmã, saia sangue. Sangue, e os gritos de dor. Os pais pediram que parassem, gritaram para que não fizesse aquilo  “Ela é apenas uma criança! Não pode violá-la, ela é uma criança!”. E, tão rápido quanto o homem começara, rindo junto com os outros, acabara: com sua arma fantástica, ele deu um tiro. E Alma viu o rosto de sua irmã mais velha se transformar numa máscara de morte.

1949 – Rio de Janeiro.
- Adeus, desgraçado. – a voz de Alma saiu como um sussurro fraco, antes de saltar em cima de Himmler, o homem que violara sua irmã e a matara em seguida naquela noite fatídica. Com suas mãos pequenas, e ignorando muito bem a expressão de puro terror de Himmler, quebrou-lhe o pescoço e cravou suas presas sedentas naquele pescoço podre.
                Ela se sentia suja. O sabor da vingança fedia à perfume alemão e tinha cabelos louros, como o de Himmler.

Continua
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Aff, saiu um capitulo mega enorme, não é? D;  Foi mal, acho que me empolguei demais na narração. Enfim, espero que a estória não esteja muito confusa, nem muito chata. Para mim, Alma já se tornou minha heroinazinha preferida. Devo informar - só mesmo para não deixar isso vago - que Himmler realmente existiu, apesar dessa estória ser ficticia. Himmler era um dos homens de confiança de Hitler, assim como eu já disse na estória, e ele foi o principal responsável pela dizimação de judeus nos campos de concentração. 

Bem, era só isso mesmo. Sério, espero que a estória não tenha ficado muito chata - porque tenho a impressão de que ficou D;. E botei o nome do conto de Alma mesmo, já que ela é a personagem principal... Por enquanto, é só. 

Ja nee. *-*




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