sexta-feira, 18 de novembro de 2011

Alma #4


1949, Nova Zelândia. 

        Alma recostou-se contra a parede, negando à si mesma o cansaço que tomava conta de seu corpo. Há quantos dias não se alimentava? Três - talvez quatro?Ela já não sabia. Demorara mais do que imaginara, chegar àquele local totalmente ridículo. Casas bonitinhas, jardins bem-cuidados... Sim, era tudo muito ridículo.
        Aquelas pessoas, tão tranquilas, não sabiam de quem eram vizinhos.
        Com certeza faziam festas, e convidavam à todos, e bebiam até o dia amanhecer. Comemoravam o natal juntos, davam-se bom-dia todos os dias e sorriam amigavelmente toda vez que se encontravam. Porém, nas entranhas daquela cidade vil, vivia um homem. Seu sorriso torto, por vezes, pegava à todos desprevenidos; e seus olhos negros eram tão profundos e alagadiços, quanto um rio cheio de corpos apodrecidos. Seus cabelos, tingidos, variavam de um castanho para  um loiro, e ele não tinha bigode ou barba. Era um homem nem magro nem gordo, nem rico nem pobre. Trabalhava numa empresa que fabrica papel, há 30 minutos de carro dali.
        Ninguém sequer imaginava quem era ele, o assassino que aquela carapaça bonita escondia.
        Mas - pensou Alma - ele nunca a enganaria. Ela era boa no que fazia, boa em matar, tal qual ele. Agora, ele podia agir como uma pessoa boa; ele podia fingir-se cidadão comum. Mas o passado não se apaga, e as pessoas mortas por suas mãos, as gotas de sangue derramadas por seus dedos nodosos, não podiam voltar. Essa era a prova de seu crime, o sabor invariável das lembranças.
        Ele também não voltaria, e Alma se certificaria que ele morresse junto com seu bando de pássaros carnívoros.


1941, Berlim. 
        O cheiro metálico era insuportável. Alma sentia-se mal. Ela deixou-se ir ao chão, o medo e a incerteza fazendo-a parecer um rato amedrontado. Seus ouvidos eram consumidos pelos choros de sua mãe, que não se movia mas gemia alto. Sem se dar conta, Alma levou as pequeninas mãos até seus ouvidos, tentando impedir que aqueles sons queimantes atravessassem suas orelhas e parassem em seu cérebro. Logo ela descobriu que era inútil.
        Sua irmã continuava imóvel, tal qual minutos antes. Papai, ela pensou, também brinca muito bem de estátua. Os olhos dele estavam estáticos, como tudo ali, e fixos apavoradamente em Alma. A garota estremeceu, mas não se aproximou do corpo do papai, do homem que lhe dava beijos de boa-noite e a pegava nos braços toda vez que a via se aproximar. Ele sequer lhe deu aquela piscadinha caracteristica, do tipo que lhe fazia promessas infinitas sobre aquele mundo incerto. Sem isso, sem tudo, a garota sentia-se vazia. Tão vazia quanto aqueles olhos sem brilho, parados.
        - Ele está aqui! - um homem murmurou, sua voz muito próxima do nervosismo e entusiasmo. Ao som de sua voz, os outros ageitaram os ombros, aprumaram as armas em punhos e puseram nos olhos um brilho vazio e comedido, como se fossem máquinas, brinquedos de corda prestes a falar a frase que lhe foi empregada a falar.
        O homem, arrumado com seu casaco verde e olhos cheios de ordens, adentrou no cômodo. Suas botas, acompanhando seus passos seguros e lentos, faziam o chão ranger, como se até a madeira estivesse com medo. Alma emcarou o estranho, fixando seus olhos em seu rosto sério. "Bigodinho engraçado" - ela pensou, sorrindo levemente. O choro da mãe cessou, para ser substituido por gemidos de medo.
        - O que estão fazendo? Brincando? Mandei matar à todos, não? Matem-nas, senão, vocês serão os próximos a adentrar o necróterio! - sua voz era suave, mas vivaz. O cabelo dele estava firmemente penteado, o gel brilhando como fogos de artifício - pensou Alma.
        - Perdoe-nos, Führer. - Um homem de cabelos loiros, quase brancos de tão amarelos, disse. Ele apontou para dois homens, e mandou que dessem um passo a frente. Dois pares de olhos se fixaram em Alma e sua mãe chorosa, apontando as armas como troféus poderosos, cartas muito boas num jogo de cartas.
        Um. Dois. Três.
        A morte não dói tanto assim.

1949, Nova Zelândia.
        A lua decorava o céu com ousadia, e Alma já não sentia aquele calor intenso do sol. Bom. Ela deixou que seus pés, movidos pelo instinto animal, a levassem até aquela fábrica inútil, barulhenta e nojenta. O prédio cheirava a madeira e sofrimento, as paredes eram decoradas com pinturas de mofo e pinceladas de teias de aranhas. Era tudo tão grande, tão imenso; aquilo fazia da pequena Alma, uma criança acanhada. Ela sorriu, seu sorriso quase humano.
        O homeme estava ali, arrumando-se para sair de seu turno. A fábrica estava quase toda vazia, ocupada apenas com poeira e ruídos estranhos. Alma estava concentrada no pescoço suado e nodoso daquele homem, e malmente percebeu que seu corpo entrava no ápice do desejo, impelindo-a para cima - para um salto certeiro no grande homem, no Grande Führer.
        - Pensou que tingir o cabelo e tirar aquele bigodinho ridiculo o faria ser perdoado pelos seus crimes, Hitler? - o homem assustou-se com a voz quase infantil, apesar de arrastava e rouca pelo desejo, que saira de suas costas, e seu corpo tremia quando o de Alma estava montado em cima de seus ombros. As mãos pequenas da menina agarravam seu cabelo e pescoço, e Alma, num ângulo estranho, deixou que sua língua passeasse pelo pescoço do homem aterrorizado.
        - D-d-do que está falando? - ele teve forças para dizer, com seu sotaque carregado, antes de sentir as presas afiadas penetrar sua pele e tirar-lhe, lentamente, a vida.
        Como nunca, Alma deixou-se sentir prazer por ver a vida se esvaindo daquele corpo ridiculamente fraco. O cheiro do cabelo lavado de suor, a deixou mais desejosa por aquele liquido que corria solto nas veias assassinas do homem.
        "Você é como todos" - ela pensou. "Você morre como todos. Sim, você é humano. É apenas um homem. Como se sente, ao descobrir que não fui enganada pelo seu truque barato? Fingir-se de morto?! Eu te perseguiria mesmo que estivesse debaixo do chão, que é seu lugar, junto com os outros vermes. Junto com seu povo."
        O corpo caiu, e Alma ainda estava ali, seu corpo em cima do dele, seus dentes sugando à tudo. O ambiente cheirava a sangue, o mesmo cheiro do passado. Porque tudo é igual, e a morte, no fim, é a mesma para todos. Mesmo quando já não havia o que beber, Alma mantevesse ali, estática, agarrada ao corpo. Não se importava com o que viria a seguir. Ela não precisava respirar e seu coração malmente batia, seus pulmões não suplicavam por oxigênio; ela não estava viva. Estava morta. Mas se movia. Por isso nada mais importava, sua família estava vingada. Como prova disso, um corpo pálido, retesado, deitava-se no chão como se ali fosse sua própria morada, como se estivesse dormindo confortavelmente em sua cama.
        Alma estava tão apagada em suas lembranças, que malmente percebeu quando uma sombra se aproximou, encostando-se na parede ao lado. Seu cheiro, o calor que seu corpo emanava; era tudo como antes.
        Era ele.

Continua
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Peço desculpas pelo tempo sem postar. Foi a internet aqui de casa que resolveu ficar de mal comigo (pela centésima vez... Isso é que chamo de relacionamento complicado). Sei, sei, eu disse que ia postar um capítulo de Z35, não foi? Mas não consegui, simplesmente, esquecer minha querida Alma durante esses dias... Tive que escrever sobre ela, e para ela - porque tenho a impressão de que a amo, não como uma filha mas como uma melhor amiga. Eu e ela, creio, somos um pouco parecidas. (Falei demais! Certo, vou parar).

Amanhã, ou depois, posto mais alguma coisa; então, até lá. ^^
Albert-nii-chan, terminei de assistir Playfull Kiss (*-*). Ah, sim, sim, e vou ler Xógum - deixa eu terminar de ler esse O Jogo do Anjo. Sinceramente, estou morrendo de medo dele (é livro de suspense... e, realmente, estou com medo! Nii-chan, me ajuda, vai?  D;).

Ja nee. [;

3 comentários:

  1. Você realmente possui um bom faro para comentários.
    Comentei e você veio...
    *-*
    Alma... Legal, legal...
    O fim (o final) está próximo!
    HAHAHA, vai sair da frigideira para cair na brasa... Xógum também tem umas partes bem sangrentas, sabe como é né? Seppuku pra cá, harakiri para lá, matar toda sua família para cá, jogar sal nas suas terras para lá♪
    Vai começar a assistir que dorama agora? *-* Assistiu os especiais também? Como são? Acho que os deletei \o.
    Bem, acho que é isso... Se você demorar de mais eu comento aqui de novo e faço você aparecer!

    Gokigenyou, oneesama.

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  2. PS.: A morte do Führer do Terceiro Reich foi sem graça. #desabafo #falomermo

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  3. Posso dar uma dica? O homem que aparece agora... É o pai dela? O vampiro que mordeu ela na hora em que ela ia morrer? Eu, depois de criar uma máquina que viaja entre o tempo/espaço/dimensão?

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