1949, Nova Zelândia.
O sabor
amargo do sangue ainda tomava conta dos lábios de Alma, enquanto ela se
levantava , muito lentamente, e fitava o invasor de sua hora de paz. A sombra,
encostada contra a parede, fitava a menina com intensidade, suas pupilas
vermelhas e dilatadas destacadas por entre a penumbra febril da fabrica. Os ruídos
se misturavam uma melodia compassada: os ratos andavam para lá e para cá,
goteiras mantinham um ritmo constante, batendo num ritmo alucinado. Alma passou
a mão pela boca, e tentou limpar o sangue que ainda se mantinham grudado em
seus lábios sempre muito vermelhos.
- O que
faz aqui? – Alma perguntou, sentindo sua voz rouca ressoar num eco profundo,
passando por todas as paredes da fabrica e voltando para onde eles estavam.
Eles: Alma, um estranho e Hitler, agora morto; um enfeite num cenário mórbido.
-
Acabou? – ao invés de responder, ele fez outra pergunta. Ah, com certeza era
ele mesmo! Só aquele parvo tinha o poder de tirar Alma do serio tão
rapidamente.
- O que
lhe interessaria se eu houvesse acabado, ou não? Acha que tem o direito de agir
como meu pai? – sua voz vampira, constatou Alma, não combinava nem um pouco com
a tensão histérica presente no seu tom.
- Pai?
Hm. Acho que tenho o direito sim, mas não como um pai... E você sabe bem disso.
Antes
que Alma se desse conta, o estranho estava à apenas um palmo dela, encostando
seu hálito quente e reconfortante em sua face pálida – agora corada, por causa
da recente refeição. O estranho beijou sua bochecha, num canto perigosamente próximo
de seus lábios, e sussurrou-lhe no ouvido:
- Agora
que acabou, podemos viver juntos, não? Esperei tanto tempo... Somos iguais, somos
um.
1942, Finlândia.
A
primeira sensação que Alma sentiu, foi de vazio. Vazio de corpo, de alma, e de
luz. Era estranho, mas não sentia medo. Seus olhos fixaram no teto,
prenderam-se nas paredes que a cercavam e a apertavam. Ela levantou as mãos e
percebeu, tateando o local como uma criança, que estava dentro de um caixão.
Não havia oxigênio suficiente ali, ela notou, mas aquilo não parecia
incomodá-la; tão pouco era necessário inspirar ou expirar o ar. Alma sorriu,
confusa.
Estava
morta? Havia virado uma alma penada, daquelas que seus familiares costumavam
contar estórias?
Se ela
tivesse sorte, talvez sim. Ela ainda conseguia ouvir os gritos desesperados dos
últimos segundos de vida de sua mãe, e o baque surdo que seu corpo fez quando
caiu no chão. Ainda podia sentir o cheiro do sangue e ouvir as risadas
masculinas. Podia sentir a tudo do passado, como se as lembranças fossem tão
reais quanto o presente. Ela bateu na tampa do caixão, agora não sabendo se
tinha o direito de sair dali, ou não. Será que seus pais também estavam
acordados?
Pouco
depois de suas mãos buscarem abrir o caixão, e bater naquela tampa dura por
alguns segundos, ela entreabriu-se devagar, revelando um facho fraco e azulado
de luz. Antes mesmo que toda a tampa fosse aberta, Alma pôde vislumbrar quem o
abria. Um homem. Seu sorriso simples e conhecido.
Ele.
Ele não
havia morrido, tanto tempo antes?
Alma
não conseguiria respirar, mesmo que pudesse, diante sua surpresa.
Aqueles
olhos negros, sempre tão alagadiços; sua pele parda; seus cabelos negros e
lisos... Sim, não havia duvida. Era Joshua.
Joshua
estava ali.
Com
ela.
Olhando-a
com ternura.
Era
ele.
- Como
se sente? – sua voz. Profunda, o sotaque carregado ainda presente em seu tom
meio rouco e sussurrante.
Alma
abriu os lábios, mas sua voz não saia. Ela levou os dedos aos lábios, e sorriu.
Abraçou Joshua com toda força que podia. Ela sabia que ele era o motivo de sua família
toda ser assassinada, mas não conseguia odiá-lo – não à ele. Ele era especial.
Um dia,
seu pai chegou em casa com um estranho em seu encalço, vestido com mais roupas
do que era necessário, no meio de uma madrugada abafada. Alma levantou-se,
curiosa, e ouviu os sussurros entre os pais e o estranho recém-chegado. A
primeira coisa que ela notou: aquele homem era igual à muitos outros que ela
vira na rua, e que pareciam sofrer um ódio por todos os da “raça” dela;
assuntos, dizia seu pai, que ela não devia parar para pensar. “Coisas de adulto”,
completava a mãe. O que papai fazia com aquele estranho ali?
Ela
adentrou na sala, timidamente, e sorriu. Todos, após cinco segundos de susto,
sorriram também. O pai chamou-a para perto.
-
Leslie, esse é o Joshua. Ele vai morar conosco... Mas você não pode contar a
ninguém, tudo bem?
Leslie...
Sim, era seu nome... virou o rosto devagar, fitando o pai, e sorriu enquanto
assentia. Dirigiu-se ao estranho, Joshua e seus olhos que pareciam segurar o
mundo em seu brilho alagado, e dirigiu-lhe um sorriso cativante.
A
partir daquele dia, se tornaram amigos. Amigos que só podiam existir enquanto
sustentavam um segredo pecador: ela e sua família lhe resguardava a vida, e ele
lhes dirigia uma gentileza e amor nunca visto em mais ninguém por ali. Leslie lhe
dava amor, e ele lhe devolvia com afeição acentuada... Até que ele se foi.
Para
sempre.
1949, Nova Zelândia.
-
Joshua...
Ele
sorriu, seu sorriso do passado, e passou os dedos pardos pelo rosto da menina. Deteve-se
por um momento, e fitou a menina com olhos profundos.
- Quantos
anos você teria hoje, se não houvesse se tornado vampira?
A
menina deu de ombros, e respondeu sem entender no que aquilo podia ser
importante. - 15.
Ele
sorriu novamente.
- Agora
aceita ficar comigo, não aceita?
Seus
olhos cheios de promessa, prometiam o que nada no mundo já podia dá-la: ela era
uma vampira, não merecia amor, não merecia paz. Apesar disso, ele também era. O
que os unia ali, era a inexistência de vida. Deviam estar mortos; mas não
estavam. Estavam juntos.
E a
vida se estendia no céu cinzento, prevendo um futuro estranho. Podiam ser
felizes, num mundo que os classificava como lendas?
Fim.
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Certo, acho que esse foi a finalização de conto mais sem graça que já fiz... Acho não, tenho certeza. Como eu disse no inicio, eu tentaria fazer um bom final, mas não sou boa com finais - então, vocês têm que dar um desconto para mim, não? [;
Desculpem mesmo, se não gostaram.
Bem, agora posso me dedicar à Z35 e sua estória. *-*
Até a próxima.
Oneesama!!! Sem graça? Surpreendente!
ResponderExcluirPrimeiro porque Joshua é o vilão de um dos meus contos, bem, ele não é um vilão... Eu chamei ele de 'personificação do ódio'.
Você tem ótimas bases para escrever tais contos, Alma foi sensacional. Quero uma segunda temporada.
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Lendo muito?! Ganbatte kudasai!!! Quem sabe você consegue assistir todos os doramas que te passei até o final deste ano... [vício x.x]
Saudades :\
Bem, era só isso mesmo, obrigado por dar sinal de vida, ou de morte, com o final de Alma.
Por favor, quero um final interessante também para Z35!
Bai bai, fique bem, por mim e por você!
Hello!!!!
ResponderExcluirNão te esqueci não viu?? Não foi dessa vez que você se livrou de mim!
Estou aqui e lendo a Alma, já era pra ter acabado de ler mas fiquei uns dias off!
Beijos!