sábado, 24 de dezembro de 2011

Banco de praça


Se um dia você quiser perturbar uma pessoa, diga que a ama. Se não conseguir perturbá-la, saiba, então, que seus sentimentos não são correspondidos.
               
                Ana acabara de acordar, quando ouviu o telefone tocar. O som alto parecia ecoar pelas paredes solitária de seu pequeno (para não dizer minúsculo) apartamento, com a pintura branca sendo interrompida uma ou duas vezes por quadros pendurados por todos os cantos. Por um instante, Ana pensou em não atender, mas, com a insistência do toque, correu para o aparelho escandaloso e o pôs no ouvido. É interessante como um simples ato pode mudar toda uma vida. Ou mais de uma.
                - Alô. – a voz de Ana deixava, abertamente, transparecer que a conversa seria breve e que ela não estava a fim de papo furado. Mas a voz que respondeu era a única que ela não esperava ouvir.
                - Ana? – um tom mais grosso que há dois anos atrás, perguntou, do outro lado da linha. Na voz, sobressaia um som divertido, como se ele achasse graça da pouca amabilidade que Ana apresentara ao atender o telefonema.
                A garota ficou sem voz por um, dois, três... Ao todo, dez segundos, antes que o rapaz ficasse preocupado e repetisse a pergunta:
                - Ana? Ana, você...
                - Sim, estou. – Ana recuperou a voz e respondeu, mesmo não sabendo qual a pergunta que ele faria. Se pudesse desligaria o telefone e deixaria para trás o passado e aquele homem perturbador... Porém, sua mão não obedecia, e ela permaneceu com o ouvido no aparelho, mais ansiosa de ouvir a outra voz do que ela gostaria de verdadeiramente estar.
                - Ah, entendo. – ele respondeu, agora um pouco mais desanimado, diante o tom frio de sua antiga namorada. – Ana... eu voltei.
                - Percebe-se.
                O som de sua própria voz parecia a de um jogo eletrônico, e a própria Ana odiou ouvi-la. Em sua veia, parecia correr gelo, ao invés de sangue.
                - Hm, é, claro. Eu sei que... Bem... Eu fui um... Quer dizer... – a voz, do outro lado da linha, atrapalhava-se com as palavras. Não era que ele não soubesse o que dizer, ele só não sabia o que falar primeiro.  A quantidade de palavras era muita, para sair de uma única boca.  Ana ouviu um suspiro derrotado. – Certo. Será que não podemos nos encontrar, Ana? Apenas para conversarmos.
                Ela não respondeu.
                - Então, naquele mesmo lugar, à meia-noite, certo? Esteja lá... Eu estarei esperando ansioso.
                E desligou o telefone. Com um misto de derrota e felicidade, Ana afastou o aparelho do ouvido, e ficou a fitá-lo, quase com raiva, ou, talvez, com um amor incomum. De uma forma estranha, amor e raiva sempre foram a mesma coisa. Ana sempre odiou aquilo que amava.
                Era seu dia de folga. E ele passava lento. Passou uma hora, duas, três... cinco, seis. Horas e mais horas. Até que a tarde chegou, rondando como um predador ronda sua presa, antes de matá-la. Ana estava exausta, deitada no sofá, olhando para as manchas de mofo que povoavam o teto branco de sua sala de estar. As molas do sofá rangeram, quando ela mexeu-se um pouco, ansiosa e inquieta, apesar de não confessar à si mesma que o motivo daquilo era... aquele telefonema.
                Chegou as dez horas da noite. Ana estava cansada do relógio e de seu tic-tac constante.  Tentou lembrar-se do passado, e ele veio em lufadas lentas. No inicio, era apenas ela lembrando-se de quando encontrou ele pela primeira vez. Depois, seu primeiro beijo, o primeiro encontro, as tardes que passavam juntos e as noites que estudavam um ao lado do outro. O amor. E a despedida. O passado fluía, então, lentamente, como uma maresia de mar... Não, como uma maresia de amar. Até que Ana tomou uma decisão, levantou-se e correu para o quarto. Arrumou-se, penteou os cabelos negros e rebelde, calçou uma sandália qualquer, e correu.
                Correu como se sua vida dependesse disso. Sua vida, e não só ela, mas também sua felicidade.
                E lá estava ele. E não era nem meia-noite! Quando Ana viu-o, sentiu receio, mas tentava ignorar as torrentes de lágrimas que seus olhos deixaram derramar, enquanto ela corria para o lugar em que se encontrariam. Ela não sabia dizer se estava triste, ansiosa, ou simplesmente muito feliz. O passado e o presente se misturavam em lembranças doces e afiadas. Ao mesmo tempo que ela sorria por lembrar-se dos beijos, chorava por senti-los tão distante. Era uma ambigüidade assustadora.
                - Ana!
                Ele correu ao seu encontro, um sorriso aberto no rosto. Ana, então afastou-se, temerosa. Ele parou, olhando-a um tanto ferido. Seus olhos negros eram o de sempre, o mesmo de dois anos atrás, quando partira para freqüentar uma faculdade no exterior. Ele deixou-a ali, sozinha, sem família, e nem ao menos lhe dirigiu um simples telefonema! Só agora... e depois que ela já se recuperara do trauma da solidão e decidira viver sozinha para sempre...
                - Ana... Você... Eu sinto muito, se a fiz sofrer. – seus braços pendiam ao lado do corpo, enquanto ele fitava ela atentamente. – Eu também sofri. Você não sabe o quanto eu desejei...
                - Basta! Cale-se! Eu já superei isso! Você não precisava ter voltado, eu não te amo mais; será que não entende?! Volte para o lugar de onde veio, e me esqueça!
                Ela virou-se e começou a correr.
                Tudo podia ser diferente.
                Sim, tudo ia ser diferente.
                Ele também correu, alcançou-a, e beijou-a. Um beijo terno, voraz; um beijo contraditório.
                - Mentirosa... Você nunca soube mentir. – e ele sorriu ao dizer isso. – Também te amo, querida. Muito mais do que imagina. – e beijou-a novamente.

                E eu só queria dizer que podia ser diferente, que as escolhas mudam tudo. Se ele não tivesse coragem de ir atrás dela, muito mais do que sua própria vida seria perdida. Ambos saíram dali, os braços dele rodeando o corpo de Ana, e ela com a cabeça levemente encostada no ombro de seu antigo namorado. Atual namorado, corrigindo. E ela não podia imaginar que, naquele mesmo banco de praça em que se abraçaram um trilhão de vezes, no passado, se escondia uma arma; a arma que ele usaria em si mesmo, se ela não o aceitasse de volta. Porque o mesmo amor que nos dá vida... também nos deixa com vontade de tirá-la.

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Bem, sei que faz tempo que não posto nada, e tal. E também sei que o conto não ficou tããão bom quanto deveria. Mas o caso é que, odeio finais tristes, e, um dia desses, eu li um conto na internet sobre essa Ana - que, na verdade, é Marília. O que faz com que eu me sinta levemente tola - ou muito, no caso. A estória é a mesma de meu fanfic - é assim que devo chamar, né? Afinal, a estória, originalmente, não é minha -, só que, no final, o rapaz se matou. Fiquei arrasada, quando li; mas reescrever o final é como uma terapia para mim, e já me sinto bem melhor (haha). 

Na parte em que escrevo, logo no final, "Tudo podia ser diferente", evidentemente eu me referia ao final do conto original... Quando terminei de lê-lo, foi a primeira coisa que pensei. "Tudo podia ser diferente." . E, quer saber de algo engraçado? Coloquei o nome da personagem de Ana, sem me tocar que o nome da pessoa que escreveu o conto original, também é Ana. [;

Para quem quiser ler a estória original, pode ler aqui. Lembre-se, meu conto foi BASEADO no dela, ok? Aliás, a escritora é uma blogueira perfeita, que escreve trilhões de vezes melhor que eu. *o*

Ah, claro, ficou muito tedioso? Albert-nii-chan, se você conseguiu terminar de lê-lo, admiro sua força de vontade. Sei que o conto não faz seu estilo (xD).

Feliz Natal a todos.

Um comentário:

  1. Faz meu estilo sim! u_u.
    Na verdade, o que o rapaz se mata no final faz mais meu estilo. (uuu.)
    Gostei do blog da Ana Ferreira, virou tópico. Um dia desses paro para ler alguns textos; dei de cara com um tal de "O Anjo Negro", uau, parece ótimo (tem uma música que gosto com um nome parecido, então...)
    Sério, me sinto culpado por não ter lido antes, ou comentado antes. Mas eu não estava aqui. Logo chegará um e-mail para você, se tiver força de vontade para ler (são várias páginas), entenderá meu ponto de vista. Hoje foi um dia cansativo, OH WAIT, já é 27, terça.
    Jaa ne. : ( /cansado /cansado

    Depois faça outro texto (depois, depois, depois) e me deixe comentar com pulos e kyáks *-*
    Fique bem, sei que está bem. Continue bem, sei que estará bem.
    Se o seu bem-estar importa para mim, assim como importa para você... Chega, tenho um e-mail enorme para digitar.

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