"E hoje em dia, como é que se diz eu te amo?" - Legião Urbana
Receio que tudo tenha começado ali, num super-mercado
lotado, todos os consumidores se cozinhando enquanto tentavam fazer compras, o
suor se misturando e impregnando em suas roupas. Há quem consegue poetizar o
amor. Eu, particularmente, não vejo nada especial em uma briga dentro de um
super mercado lotado aos extremos, que ocasionou, dois anos depois, em um
casamento. Sim, não vejo nada de poético nisso. Mas há quem veja.
- Droga
de super-mercado! Cadê o ar-condicionado dessa porcaria?! Cadê o direito dos
clientes, o conforto?! – a raiva já há muito assolava os lábios de Raissa,
saindo em forma de murmúrios raivosos, impossíveis de serem escutados diante a
balbúrdia do estabelecimento lotado. O super-mercado parecia a fornalha do
inferno: lento, quente e entupido de pecadores.
Péssimo
dia para escolher sair às compras, pensou Raissa. As pessoas se amotinavam em
todos os lugares. Parecia que todos se preparavam para o fim do mundo,
desesperados por comida e objetos de higiene. A fila do caixa comprovava isso.
Provavelmente, ser atendida pelo SUS demoraria menos do que terminar de fazer
compras naquela fornalha.
O
carrinho de Raissa pesava. Algumas pessoas se agruparam em frente à prateleira
de sabonetes e desodorantes, enquanto Raissa tentava abrir caminho para si
mesma pegar os materiais. Alguém lhe empurrou. Um xingamento saiu torto e lento
pelos seus lábios. Uma pessoa pisou no seu pé. Raissa já estava vermelha de
raiva e impaciência. Uma idosa, lenta como uma tartaruga, tentava se enfiar no
meio dos desesperados-compradores, bem na frente da moça de cabelos castanhos e
estatura diminuta. Então Raissa decidiu.
Largou
seu carrinho ali, e se enfiou no meio das pessoas, levando tapas e pisadas,
tentando pegar um único e mísero sabonete. Algumas pessoas enchiam os braços de
desodorantes e corriam, como se estivessem prestes a serem atacados por zumbis
famintos numa noite tenebrosa. Outras ainda pareciam sair dali, com sabonetes
entulhados nos braços, como se estivessem subindo num pódio de medalha. Não
havia coisa mais deprimente. Raissa conseguiu, com um esforço que parecia capaz
de derrubar um super-homem, pegar três míseros e amassados sabonetes. A morena
começou a achar que aquele era seu dia de sorte. Empurrando e estapeando, os
cabelos num caos, Raissa saiu da multidão – com três sabonetes muito bem protegidos
entre os braços -, e se dirigiu ao carrinho...
Ah, foi
ai que começou.
Quem
enxergar a poesia do momento, por favor, me informe.
- Mas o
que...?! Seu safado, pode ir tirando a mão do meu carrinho! – Raissa gritou
para o homem alto, olhos tão negros quanto seus cabelos, que enfiava a mão no
carrinho da moça e tirava dali um saco de feijão.
- Seu
carrinho? Desculpe-me, “Srt. Estranha”, mas não havia ninguém de junto do
carrinho e não há nomes nele. Portanto, está abandonado. E, se está abandonado,
tenho todo o direito de pegar um saco de feijão, o único por aqui, diga-se
logo.
Alguém
empurrou Raissa, que de branca passava para a cor vermelha, e, de vermelha,
para roxa de raiva. Mike nunca viu tantas mudanças de cores em uma única
pessoa, e em um período de tempo tão curto.
- Seu
grosseirão! Srt. Estranha? Srt.estranha?! Repita isso se tem coragem! – ela
esbravejou, lançando as mãos para o alto, totalmente esquecida dos sabonetes, e
vendo-os caindo no chão. Cinco pessoas que estavam perto, todas de uma vez, se
lançaram aos pés de Raissa, se estapeando para conseguir pegar um sabonete que,
talvez, nem pudesse mais ser usado no banho, de tão amassado e pisoteado que
estava.
Raissa
não se importou.
- A
culpa não é minha se você é inteligente o bastante para abandonar seu carrinho
no meio do nada! A culpa é sua, e o feijão é meu!
- Ah,
mas só por cima do meu cadáver.
Quer
saber o resultado disso?
-
Michael Lemos, aceita Raissa como sua legitima esposa?
- Sim.
-
Raissa Borges, aceita o jovem Michael Lemos como seu legitimo esposo?
- Sim.
Os
olhos do padre pareciam vazios, apesar do sorriso torto que ele dirigiu a Mike,
enquanto dizia:
- Pode
beijar a noiva.
O amor
não tem poesia. Sem olhares tímidos, sem sorrisos simpáticos. Não, o amor
começa de repente, com um empurrão mau-educado no meio da multidão, com uma
briga por causa de um táxi ou por causa de um saco de feijão num super-mercado
pré-apocaliptico. O amor é um ser estranho, um verme perigoso que dilui suas
entranhas e sua razão. Sim, sem poesia.
O amor
não é poético.
______________________________________________________________
Oi, de novo. [:
Então, eis ai uma pequena crônica. Se saiu boa ou não, isso quem me diz são vocês. Bem, não sei se é certo dizer isso, mas tentarei postar com mais frequência aqui no blog, apesar de ser um pouco dificil. Haha. Afinal, inspiração não cai do céu, né?
Ah, claro, só explicando... Exagerei na situações, durante a crônica, somente para deixá-la mais estranha mesmo. Porém, se você for a um super-mercado no primeiro dia do mês, e lá estiver tendo uma promoção, acho que o que eu escrevi não se afastará tanto da realidade (haha).
Até logo, se assim for para ser. [: