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segunda-feira, 13 de fevereiro de 2012

Amor não é poesia


"E hoje em dia, como é que se diz  eu te amo?" - Legião Urbana
Receio que tudo tenha começado ali, num super-mercado lotado, todos os consumidores se cozinhando enquanto tentavam fazer compras, o suor se misturando e impregnando em suas roupas. Há quem consegue poetizar o amor. Eu, particularmente, não vejo nada especial em uma briga dentro de um super mercado lotado aos extremos, que ocasionou, dois anos depois, em um casamento. Sim, não vejo nada de poético nisso. Mas há quem veja.
                - Droga de super-mercado! Cadê o ar-condicionado dessa porcaria?! Cadê o direito dos clientes, o conforto?! – a raiva já há muito assolava os lábios de Raissa, saindo em forma de murmúrios raivosos, impossíveis de serem escutados diante a balbúrdia do estabelecimento lotado. O super-mercado parecia a fornalha do inferno: lento, quente e entupido de pecadores.
                Péssimo dia para escolher sair às compras, pensou Raissa. As pessoas se amotinavam em todos os lugares. Parecia que todos se preparavam para o fim do mundo, desesperados por comida e objetos de higiene. A fila do caixa comprovava isso. Provavelmente, ser atendida pelo SUS demoraria menos do que terminar de fazer compras naquela fornalha.
                O carrinho de Raissa pesava. Algumas pessoas se agruparam em frente à prateleira de sabonetes e desodorantes, enquanto Raissa tentava abrir caminho para si mesma pegar os materiais. Alguém lhe empurrou. Um xingamento saiu torto e lento pelos seus lábios. Uma pessoa pisou no seu pé. Raissa já estava vermelha de raiva e impaciência. Uma idosa, lenta como uma tartaruga, tentava se enfiar no meio dos desesperados-compradores, bem na frente da moça de cabelos castanhos e estatura diminuta. Então Raissa decidiu.
                Largou seu carrinho ali, e se enfiou no meio das pessoas, levando tapas e pisadas, tentando pegar um único e mísero sabonete. Algumas pessoas enchiam os braços de desodorantes e corriam, como se estivessem prestes a serem atacados por zumbis famintos numa noite tenebrosa. Outras ainda pareciam sair dali, com sabonetes entulhados nos braços, como se estivessem subindo num pódio de medalha. Não havia coisa mais deprimente. Raissa conseguiu, com um esforço que parecia capaz de derrubar um super-homem, pegar três míseros e amassados sabonetes. A morena começou a achar que aquele era seu dia de sorte. Empurrando e estapeando, os cabelos num caos, Raissa saiu da multidão – com três sabonetes muito bem protegidos entre os braços -, e se dirigiu ao carrinho...
                Ah, foi ai que começou.
                Quem enxergar a poesia do momento, por favor, me informe.
                - Mas o que...?! Seu safado, pode ir tirando a mão do meu carrinho! – Raissa gritou para o homem alto, olhos tão negros quanto seus cabelos, que enfiava a mão no carrinho da moça e tirava dali um saco de feijão.
                - Seu carrinho? Desculpe-me, “Srt. Estranha”, mas não havia ninguém de junto do carrinho e não há nomes nele. Portanto, está abandonado. E, se está abandonado, tenho todo o direito de pegar um saco de feijão, o único por aqui, diga-se logo.
                Alguém empurrou Raissa, que de branca passava para a cor vermelha, e, de vermelha, para roxa de raiva. Mike nunca viu tantas mudanças de cores em uma única pessoa, e em um período de tempo tão curto.
                - Seu grosseirão! Srt. Estranha? Srt.estranha?! Repita isso se tem coragem! – ela esbravejou, lançando as mãos para o alto, totalmente esquecida dos sabonetes, e vendo-os caindo no chão. Cinco pessoas que estavam perto, todas de uma vez, se lançaram aos pés de Raissa, se estapeando para conseguir pegar um sabonete que, talvez, nem pudesse mais ser usado no banho, de tão amassado e pisoteado que estava.
                Raissa não se importou.
                - A culpa não é minha se você é inteligente o bastante para abandonar seu carrinho no meio do nada! A culpa é sua, e o feijão é meu!
                - Ah, mas só por cima do meu cadáver.
                Quer saber o resultado disso?
                - Michael Lemos, aceita Raissa como sua legitima esposa?
                - Sim.
                - Raissa Borges, aceita o jovem Michael Lemos como seu legitimo esposo?
                - Sim.
                Os olhos do padre pareciam vazios, apesar do sorriso torto que ele dirigiu a Mike, enquanto dizia:
                - Pode beijar a noiva.
                O amor não tem poesia. Sem olhares tímidos, sem sorrisos simpáticos. Não, o amor começa de repente, com um empurrão mau-educado no meio da multidão, com uma briga por causa de um táxi ou por causa de um saco de feijão num super-mercado pré-apocaliptico. O amor é um ser estranho, um verme perigoso que dilui suas entranhas e sua razão. Sim, sem poesia.
                O amor não é poético.

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Oi, de novo. [:
Então, eis ai uma pequena crônica. Se saiu boa ou não, isso quem me diz são vocês. Bem, não sei se é certo dizer isso, mas tentarei postar com mais frequência aqui no blog, apesar de ser um pouco dificil. Haha. Afinal, inspiração não cai do céu, né?

Ah, claro, só explicando... Exagerei na situações, durante a crônica, somente para deixá-la mais estranha mesmo. Porém, se você for a um super-mercado no primeiro dia do mês, e lá estiver tendo uma promoção, acho que o que eu escrevi não se afastará tanto da realidade (haha).

Até logo, se assim for para ser. [: