sexta-feira, 22 de setembro de 2017

A explicação do afogamento

Você sabe que ele, que os outros, que qualquer outro, não entende. Ninguém nunca entendeu. Você entende? Nem mesmo você. Você nem ao menos sabe o que quer que as pessoas entendam. Não sabe o que quer entender em si mesma. Não sabe o que é, o que pensa, ainda que tenha medo de seus pensamentos que te dizem verdades o tempo inteiro.

Sabe só que é verdade que o mar é forte a noite. Que a correnteza já matou muitos. E que você não sabe nadar… E que mora perto da praia. E que ninguém achará estranho se você entrar no mar esse horário. Ninguém te verá. Sabe que encontrarão seu corpo algum dia. Talvez daqui a 3 dias, talvez daqui a 5, 7 dias. Sabe que algum dos amigos vai dar por sua falta, talvez daqui a 3 dias, talvez daqui a 5, 7 dias.

Sabe que alguns dele, os que mais importam, ficarão tristes. Sentirão uma dor que você conhece, o medo do inexplicável, perguntarão uns aos outros se podiam ter feito algo. Não podiam. Eu estou dizendo isso, ninguém realmente podia.

Esse texto talvez seja o princípio de tudo. Do fim. Do fim para mim, e não para você e os outros. Creio nisso, agora creio em tudo.

05/07/2017

terça-feira, 19 de setembro de 2017

Finitude

nada é para sempre. ela sabia, mas deixou-se enganar por um punhado de anos, enquanto a felicidade durava e até um pouco depois dela acabar. como um filme que sabemos que vai ter fim em 2 horas, mas alimentamos a ilusão de que durará uma vida, porque a futilidade do fim nos incomoda.

e incomodou ela. mas um dia ela precisou aceitar.

Acabou.

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

A morte não sabe sussurrar

a morte chama, e chama tão alto que meu coração sente, o guarda no fim da rua escuta, o casal transando do outro lado da cidade também. todos ouvem, ninguém sabe de onde vem.

pode vir de mim, do outro, só sei que escuto tão alto que quero atender o pedido, quero fazer o possível, alimentar o desejo que nasceu do nada.

mas o que é o nada, a não ser a reunião de tudo que você viu em sua vida? o que é o nada, senão a morte em vida, vivida e programada?

não me julguem aqueles que não entendem. não tentem me entender aqueles que nunca me viram, ou me viram e não sentiram. eu não sou o que sou e desconheço o sentido de tudo isso.

não me julguem, não me amem, ou me amem perto, depois longe, para então não verem a morte. a concretização da morte. morte minha, mas pode ser do outro lado que há em mim, do lado tão verdadeiro quanto obscuro e limpo.

a morte fala. e ela está chamando.

terça-feira, 12 de setembro de 2017

Quando você aceitar que não há nada, então tudo ficará bem. Não há nada para amar nem para o amor, e as relações cheias de vazio partirão junto com qualquer esperança doentia. Doença, essa é a palavra certa para o que chamam de vida.

Mas quando você aceitar que não há nada... Ah, minha pequena menina. Tudo ficará bem.

quarta-feira, 6 de setembro de 2017

As formas doentias do mundo, disformes, entoando uma canção lúgubre que parece o latido de um cachorro cansado. Enquanto isso, meu corpo é uma parafernália trêmula, dançando, quebrando tudo em si mesmo, esperando, vomitando lágrimas, água, a vida. Está é a própria vida em morte.

sexta-feira, 1 de setembro de 2017

Talvez haja um lugar em que as palavras caiam num abismo e permaneçam escondidas, quando a única coisa que você quer é gritá-las - num desejo torpe, ás vezes louco, de dizer sem ser ouvido.

terça-feira, 29 de agosto de 2017

Só receba das pessoas aquilo que querem te dar. E aceite. E então elas se vão, mas pelo menos você vai saber que não exigiu delas nada que não pudessem fazer. Porque não exigiu nada.